Categorias
Consultório da Ria

O esófago

Por Carlos Lima

O esófago é um tubo muscular, medindo entre 25 e 40 cm, no adulto. Permite a passagem dos alimentos (bolo alimentar) entre a orofaringe e o estômago. A sua contracção involuntária é conhecida como movimento peristáltico e é estimulada pelo processo voluntário de deglutição (engolir). Para facilitar a progressão dos alimentos, tem dois tipos de músculos: os circulares, que formam anéis a volta à sua volta do esófago e cuja contracção contribui para empurrar o bolo alimentar para o estômago; e os músculos longos, ou longitudinais, que coordenam o sentido da progressão dos alimentos, impedindo que o sentido seja invertido, mesmo que a pessoa esteja de cabeça para baixo. Para facilitar esta tarefa, o esófago produz um muco enzimático, que lubrifica e combate as bactérias.

Anatomicamente, está dividido em três partes: cervical, torácica e abdominal. A parte cervical (relaciona-se com o facto de estar por cima da coluna vertebral cervical — no pescoço) começa na divisão entre a parte aérea (traqueia) e a parte digestiva (esófago), junto da cartilagem cricóide, ou seja, abaixo da chamada maçã de Adão. Tem neste percurso ao seu lado (direito e esquerdo) duas grandes artérias que vão irrigar o cérebro (as carótidas). Na parte torácica, encontra-se por cima da coluna vertebral e acompanha a artéria aorta descendente e a traqueia. A parte abdominal tem cerca de dois centímetros e fica abaixo do diafragma, até ao estômago.

O esófago tem três estreitamentos (apertos): o estreitamento superior ou cricóide, que assume particular importância, pois é aí que se define o tamanho ou a dimensão do que entra no esófago — se o que chega não consegue passar, fica retido e produz o engasgamento; o estreitamento médio, que tem a ver com a passagem do ramo brônquico esquerdo (pulmão esquerdo) e com o cruzamento com a artéria aorta, que, até aí, estava à frente do esófago e, a partir daí, passa para trás; e estreitamento inferior, que está relacionado com a passagem do diafragma e assume a importância de manter a cavidade abdominal e torácica estanques ou separadas. Um relaxamento diafragmático a este nível permite a formação das chamadas hérnias do hiato ou gastroesofágicas.

O refluxo gastroesofágico, ou retorno do conteúdo do estomago ao esófago, é um dos problemas mais comuns. Cria a sensação de queimadura no esófago, devido aos ácidos gástricos, sendo chamado de pirose ou azia. É frequente nas pessoas que ingerem grandes quantidades de alimentos de cada vez, pois dilatam o estômago e limitam a capacidade de esfíncter do estreitamento inferior. Também é comum na grávida devido ao aumento da pressão intra-abdominal.

A inervação vagal (nervo vago) coordena as contracções sincronizadas peristálticas, apenas contrariadas pelas contracções espasmódicas do vómito, o que faz com que o vómito nos seja tão incomodativo.

A proximidade do esófago a estruturas nobres, como as artérias que fazem a irrigação cerebral, com a artéria aorta e com o próprio coração, podem levar a problemas graves, ou mesmo à morte, quando a pessoa que esteve exposta ao sol ou a fazer esforço físico intenso a seguir ingere líquidos ou alimentos muito frios, pois faz cair a temperatura do sangue abruptamente, levando ao colapso das artérias ou cardíaco.

As varizes esofágicas são frequentes na pessoa portadora de cirrose hepática, devido à tensão no sistema porta hepática, que irriga e drena sanguineamente o fígado. A ruptura destas varizes é um problema hemorrágico grave e exige intervenção médica atempada.

Da próxima vez que eructar, ou arrotar, de satisfação, lembre-se de que o seu esófago teve um contributo para isso.

Saúde!

3 comentários a “O esófago”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *