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Tecnologia Agostini

Por Gustavo Martins-Coelho

Antigamente, a tecnologia vinha em fascículos. A Internet era do Sapo. Quando falei no Sapo pela primeira vez à minha mãe, ela achou que eu estava a fazer pouco. Onde já se viu um sapo na Internet? Não sabia que Sapo era o «Serviço de Apontadores Portugueses».

A Internet era do Sapo. Os telefones eram da Portugal Telecom. A televisão era da TVCabo. Agora, vem tudo incorporado numa tarifa única: fazem-se chamadas, usa-se a Internet, vê-se televisão e tem-se um telemóvel (até o cinema pode fazer parte do pacote), tudo por uma renda mensal. Assim uma espécie de parceria público-privada, em que pagamos a renda, mesmo que não usemos o serviço. Deve ser a isso que aludem os senhores que falam das rendas excessivas da EDP. Mas, no fundo, está certo: depois de, durante séculos, os Chineses nos terem vendido porcelanas valiosíssimas por meia dúzia de patacas, agora compensamo-los, comprando-lhes a nossa energia a preço de ouro.

Este modo de embutir funções e serviços também chegou aos equipamentos. Um telefone era um telefone. Uma agenda era uma agenda. Um calendário era um calendário. Uma máquina de escrever era uma máquina de escrever. E uma máquina fotográfica era uma máquina fotográfica. Agora, vem tudo (e mais alguma coisa) no tablete.

Sou, dum modo geral, bastante contra toda esta infindável mistura de funções. O rádio serve também para tocar uns pequenos discos prateados, a máquina de barbear pode funcionar na pele seca ou molhada, o posto de abastecimento de combustível é também uma mercearia, o telefone serve de calendário, álbum de fotografias e sei lá o que mais. Isto não passa dum absurdo perigoso, que só leva a que os nossos jovens estejam sempre de olhos pregados no telefone quando andam pela rua, o que faz com que sejam atropelados aos milhares. [a]


Nota:

a:  Timur Vermes, «Ele está de volta»

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