Categorias
Olho Clínico

L'Inconnue de la Seine

Por Sara Teotónio Dinis [a]

Prólogo: Esta é a história de como uma presumível suicida parisiense de 1880 se transforma numa modelo de 1958.


No século XIX, antes da era da fotografia, os famosos ou ricos que faleciam eram recordados de forma especial: com uma máscara mortuária [2]!

Na Europa, as máscaras mortuárias podiam estar placidamente colocadas nas estantes da sala de visitas. O seu propósito era servir de referência para os artistas que pintavam os retratos dos mortos, post mortem. Serviam também como recuerdo, para homenagear os entes queridos, no cantinho junto aos livros.

A máscara mortuária era conseguida recorrendo a gesso molhado ou a cera mole, que eram colocados à volta do rosto do recém-falecido, logo nas primeiras horas, para conservar a originalidade das feições. Este molde podia depois ser preenchido para criar o modelo tridimensional da face — a máscara mortuária. E quem é que concretizava o processo? O médico!

Muitas cópias podiam depois ser feitas a partir duma máscara, permitindo que vários membros da família, ou fãs da pessoa famosa, pudessem exibir as cabeças como decoração.

Curiosamente, a máscara mortuária mais conhecida é a duma mulher de identidade desconhecida — L’Inconnue de la Seine («a mulher desconhecida do Sena», em Francês). O seu corpo foi encontrado no Sena em 1880 — um provável suicídio…

Conta a história que um patologista da morgue de Paris ficou tão impressionado com a beleza do seu rosto, que o eternizou com uma máscara mortuária. O sucedido tornou-se «viral»; e a cópia da sua máscara rapidamente se tornou um acessório obrigatório de decoração para ter em casa.

L’Inconnue de la Seine saltou de Paris para o resto da Europa, sendo referida em várias obras literárias e teatrais inglesas, francesas, alemãs, americanas e russas. Albert Camus, por exemplo, comparou o seu sorriso ao da Mona Lisa e especulou sobre que pistas poderia a sua expressão estranhamente feliz oferecer sobre a sua vida, a sua morte e o seu lugar na sociedade.

Esta história, que tem tanto de belo como de mórbido, ganhou novo relevo em 1958, ao servir de inspiração para o desenvolvimento duma ferramenta com a qual todos os médicos já puderam com certeza privar — e até beijar — o manequim de ressuscitação cardio-pulmonar Resusci Anne! Pois é, a face da Ana é uma adaptação do rosto sereno e eterno de l’Inconnue de la Seine!

Poderia questionar-se o motivo pelo qual foi feita a escolha… Mas, de facto, quando se torna necessário socorrer alguém em apuros, a identidade não é o essencial; e, sejamos francos, a senhora era uma morta bonita.


Nota:

a: A Sara retoma hoje a sua actividade habitual no «Olho clínico» [1], excepcionalmente à Quinta-feira, regressando à Terça-feira para a semana (n. do E.).

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *