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Anotação Musical

D. Dinis musicalmente

Por Nuno Rua

Entendendo por Portugueses todos aqueles que se sentem como tal, encontro o nosso povo bastante ativo no que toca à procura de símbolos, de tradições e de cultura que distingam e enalteçam esse conceito quase metafísico — a portugalidade. Do fado, património imaterial da humanidade, ao gigante apoio à selecção portuguesa de futebol, verifico que, neste momento, queremos algo de que possamos orgulhar-nos. Talvez uma tentativa de sarar a ferida, ainda muito aberta, sofrida pela conjuntura política, económica e social residente no nosso país. Ainda que ache que não devemos fugir ou simplesmente alhearmo-nos destes problemas, não vejo com maus olhos tentarmos ganhar algum ânimo naquilo que sempre foi e continua a ser nosso, naquilo que as pessoas deste povo são capazes de realizar.

Num regresso ao passado, mais propriamente à Idade Média, encontramos um Rei de Portugal muito importante para a História da música ocidental, falo d’El Rei D. Dinis. A poesia e a formação musical deste rei português valem-lhe, hoje, no seio da comunidade de musicólogos internacionais, o maior respeito enquanto trovador que inovou na composição musical, obtendo mesmo músicas mais ricas melodicamente que os antigos trovadores da Aquitânia. Quem foi, afinal, este rei?

D. Dinis nasceu em 1261 na capital do reino, filho de D. Afonso III e de D. Beatriz de Castela. Apesar de ter nascido num «berço ilegítimo», situação resolvida em 1263 pelo Papa Urbano IV, o Lavrador lidou desde novo com a alta estirpe de famílias reais que o ligavam a coroas de gabarito europeu. Este rei era neto do célebre D. Afonso X de Castela e primo de Filipe III e Filipe IV de França. Da parte da sua mãe, estava ligado à coroa inglesa e era também primo de Isabel de Aragão por parte de Frederico I, imperador da Alemanha; a própria rainha Santa Isabel foi a mulher que D. Dinis levou ao altar.

Cresceu e foi formado num ambiente intelectual e humanamente esclarecido. Teve como mestres Ayméric d’Ebrard e também D. Domingos Jardo, cuja formação foi adquirida em Paris e posteriormente foi bispo de Lisboa. Os anos foram passando e D. Afonso III, encontrando-se doente, decidiu oferecer não só a própria casa ao futuro rei, mas também vassalos, oficiais, bens e dinheiro. Um documento escrito em Latim e em Galaico-Português, datado de 1278–1282, prova isso mesmo.

D. Dinis foi chamado a sentar-se no trono português em 1279. O matrimónio com D. Isabel de Aragão deu-se apenas em 1282, na vila de Trancoso. Festas e música, muita música, mantiveram os noivos durante quatro meses, ou à volta deste tempo, em terras da atual Beira Alta.

D. Dinis, entre muitas outras características, era um homem dedicado à arte. A sua sensibilidade estética levava-o muitas vezes a exprimir o que sentia de várias formas; uma delas foi a música, tendo-lhe concedido a maior importância, entre os monarcas da Dinastia de Borgonha ou Afonsina. A cantiga de amor é o género privilegiado nesta edição do jornal. Importa dizer que é influenciada de forma fulcral pela cansão occitânica, sendo este o mais artístico dos géneros trovadorescos. É também, geralmente, mais curta e frequentemente inclui um refrão, duma forma elaborada. Retoricamente, escreve sentimentos de amor do poeta, por uma donzela da nobreza, mencionada como senhora. Quando não se apresenta um refrão, é por tendência constituída por três ou quatro estrofes, de sete versos decassilábicos, em que o esquema de rima se divide de forma não simétrica, em quatro mais três versos. Por outro lado, na maior parte destas cantigas, as estrofes são reduzidas a quatro ou cinco versos, de modo a admitir a presença dum refrão, cuja sua extensão varia entre um e três versos.

A sugestão musical, desta vez, é precisamente uma cantiga de amor de D. Dinis, chamada «O que vos nunca cuidei a dizer» que está disponível no nosso amigo Youtube [1].

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