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Docendo Discimus

Os economistas levam o seu tempo

Por Hugo Pinto de Abreu

Esta coluna da «Rua…» [1], o «Docendo discimus» [2], fez, há pouco tempo, um ano [3]. Ainda não tinha exprimido publicamente o meu agradecimento ao Gustavo [4, 5, 6, 7, 8] pelo convite que me permitiu participar neste extraordinário projecto que é a «Rua da Constituição» [1], quer como colunista, quer como editor-associado.

A função de editor-associado, apesar de não ser tão visível para os leitores, tem sido para mim muito gratificante e educativa; educativa no sentido em que ocasionalmente ocorre ser chamado a editar textos com os quais discordo em parte, ou mesmo totalmente, e isto parece-me um bom exercício de cidadania, que muito fomenta o apreço pela liberdade de pensamento.

Foi por isso que, com naturalidade, editei a última publicação do Gustavo [4, 5, 6, 7, 8] na sua coluna «Mil palavras» [7], intitulada «Por que não se pode confiar nos economistas» [9], sendo que eu próprio sou economista. O texto do Gustavo é muito interessante, e concordo grosso modo com o que é dito; mas como creio que, apesar de tudo, seria exagerado não confiar nos economistas tout court, tomo a iniciativa de trazer à colação o seguinte excerto de um artigo científico que tenho estado a estudar, relacionado com a capacidade de prever defaults de dívida soberana:

Contudo, se a literatura económica sobre os defaults de dívida soberana indica algo, é que é mais fácil explicar um default do que prevê-lo.

[…]

Na Secção de Referências, coloquei citações para a maior parte dos estudos de maior relevo e muitos dos estudos de menor relevo sobre o risco da dívida soberana que apareceram na literatura económica nos últimos 25 anos. […] Os estudos empíricos contidos nessas referências tentam prever futuros defaults com base no estudo das características de defaults passados. Diga-se que estes estudos foram em grande medida mal sucedidos nesse objectivo. Até aqueles estudos que pareciam ter algum poder preditivo eram, na verdade, ilusórios, quando analisados à lupa.

O problema advém dos alegados «indicadores económicos de default». Estes indicadores, em alguns estudos, comprovaram fornecer seis a dezoito meses de «alerta antecipado» de defaults iminentes. Contudo, em muitos países em desenvolvimento, estes indicadores de tendência são publicados por vezes com um atraso de dois anos relativamente ao período a que respeitam. Assim, em termos de informação pública disponível para os credores comerciais, esses dados pouco poderiam contribuir para reduzir a sua exposição ao risco de defaults iminentes.

Um produto derivado muito útil que resultou das muitas tentativas falhadas de prever com segurança defaults soberanos é o facto de os factores ligados aos defaults terem sido identificados. […] A História mostrou com frequência que, apesar de um país optar pelo default muito antes de chegar à situação de se ver forçado a entrar em default, essa escolha está intimamente relacionada com a saúde económica do país. Por outras palavras, a vontade para pagar é uma função da capacidade para pagar, mas com um ponto crítico («offset») que corresponde à almofada económica («economic cushion») que um regime sente que precisa para manter o poder político. [a]

Os primeiros dois parágrafos desta citação parecem ir exactamente ao encontro do que o Gustavo [4, 5, 6, 7, 8] referiu na sua publicação [9]: as tentativas de criar modelos baseados em dados históricos com vista a conseguir prever futuros defaults falharam redondamente — tal como falharam as previsões sobre o Campeonato do Mundo de Futebol de 2014.

Os três parágrafos seguintes, contudo, são exemplificativos daquilo que eu hoje me propunha dizer aos leitores. No caso em apreço, os modelos económicos podem não ser ainda muito fiáveis para prever defaults, mas são já capazes de fornecer sinais de alerta seis a dezoito meses antes do evento, o que é um grande passo. Ou seja: a ciência económica pode andar e progredir aos trambolhões, mas anda e progride. Os economistas não estão sempre equivocados: apenas levam o seu tempo até chegar à verdade. Como todos nós, aliás.


Notas:

a: Babbel, D. (1995), «Insuring Sovereign Debt Against Default», World Bank Discussion Paper Series, pp.12–13. [9]

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