Categorias
Noutras Ruas

A geração perdida

Por Daniel Oliveira (Expresso, 3.VII.2012) [1]

Os enfermeiros que começaram a trabalhar ontem nos centros de saúde de Lisboa e que foram contratados por empresas de prestação de serviços — o Estado arranja forma de, ele próprio, ludibriar a lei laboral — receberão quatro euros por hora.

Centenas de bolseiros que trabalham em laboratórios e universidades do Estado estão há meses com as suas bolsas em atraso. Os bolseiros de doutoramento e pós-doutoramento receberão o mês de Julho com atraso. Uns e outros estão, com muito raras excepções, proibidos de ter qualquer outra fonte de rendimento. Têm de viver do ar ou com a ajuda dos pais, se eles lhes conseguirem valer.

Poderia continuar. Os estágios não pagos em várias profissões qualificadas. A forma como as empresas de trabalho temporário transformam a desgraça de milhares de jovens numa excelente oportunidade de negócio. Mas tudo se resume a isto: andámos a gastar dinheiro em formação para mandar embora os jovens mais qualificados que alguma vez este País conheceu. A isto chama-se desperdício. E não, não temos, como muita gente julga, «doutores» a mais. Olhem para a Europa. Temos «doutores» a menos. O problema é que a maioria das nossas empresas não foi capaz — por culpa própria ou pela estratégia económica dos sucessivos governos — de aproveitar esta oportunidade.

Um jovem qualificado português tem duas possibilidades: ou vive às custas dos pais nos primeiros anos de carreira (se os pais o puderem ajudar), paga para trabalhar e aceita adiar o começo da sua vida para um futuro distante, ou emigra e vem cá no Verão. Se fizer a primeira escolha, pior para ele. Se fizer a segunda, pior para nós.

Recentemente, um jovem deputado do CDS, com 29 anos, estudante veterano e sem nenhum currículo que não seja o de deputado, disse, sobre o jovem português: «fatalmente, vai cada vez mais criar o próprio emprego e não andar à procura na indústria ou noutros sectores». Foi isso que fez no CDS e justamente ficou com a pasta do «empreendedorismo». Não desenvolvo mais sobre esta maravilhosa frase do felizmente obscuro «jotinha» Michael Seufert, que tem como principal solução para o desemprego dos jovens que estes deixem de descontar e receber da segurança social. Apenas isto: nenhum país vive exclusivamente de empresas unipessoais. Nenhum país dispensa técnicos especializados, que podem não ter especial talento para os negócios, mas sem os quais os negócios não vão longe. Compreendo que estes empreendedores teóricos — como o nosso primeiro-ministro — não consigam passar das frases feitas, dignas dos artigos de auto-ajuda profissional. Mas, ou começamos a ser governados por quem queira aproveitar a melhor de todas as gerações, ou espera-nos um futuro sombrio.

Como é possível algum tipo de «empreendedorismo», se os melhores se forem embora? Como esperam vencer a nossa crise demográfica, se os jovens viverem na mais absoluta das precariedades? Como esperam que eles garantam uma boa formação para si e para os seus filhos, se cometerem a loucura de os ter, a receberem quatro euros por hora? Como será a nossa velhice, se, para viverem, os nossos filhos dependerem da ajuda das nossas magras reformas, se viermos a tê-las? Enfim, como poderá esta sociedade ser sustentável, se continuarem a esmifrar até ao tutano uma geração que se preparou para o desenvolvimento dum País que afinal decidiu regressar ao século XIX?

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *