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O sentido da vida

Por Gustavo Martins-Coelho

Das coisas mais insignificantes, nascem as conclusões mais interessantes. Um dia, estava a cortar a relva e descobri o sentido da vida, assim, do pé para a mão: nenhum.

Se queres as coisas bem feitas, fá-las tu mesmo. Não contrates jardineiros. A jardinagem deve ser feita pelo próprio, para perscrutar o sentido da vida entre duas ervas daninhas. Não vale a pena procurar entre as flores.

Ainda assim, mesmo não tendo sentido, às vezes acho que a vida devia ter um Control–zê [1].

Tirando a vida, tudo tem sentido, se lhe dermos o suficiente de nós. O Carnegie disse para fazermos limonada quando tivermos um limão. Talvez, quando a vida nos dá limões, seja mesmo porque estamos a precisar da vitamina C.

Há um dia em que descobres que a vida muda e que o que davas por adquirido passa. A maior competição das nossas vidas acaba por ser entre a carreira profissional e a vida pessoal. São incompatíveis: ou se constrói uma carreira profissional de sucesso, ou se vive uma vida pessoal plena. A grande decepção é que não se pode ter as duas. Porém, é possível — quiçá frequente — acabar-se com a que sempre se preteriu.

O amor da tua vida, afinal, era uma paixão passageira. O teu melhor amigo tornou-se um desconhecido com quem trocas palavras de circunstância. A família é uma comissão de extraterrestres enviada à Terra para te examinar. Até o Soares se troca com o Borges. E depois há aquele grande momento em que uma só frase questiona tudo o que julgavas saber.

Fica sempre algo por dizer do tanto que há. As palavras são carruagens que deslizam sobre carris de frases, que se ramificam em agulhas para destinos diferentes, puxadas por locomotivas de ideias descendentes. Uma ideia é uma bolha de ar presa num plástico fechado a vácuo, que nunca se sabe para que lado vai escapar quando pressionada com o dedo. Cada palavra abre mil portas, mas só se pode passar por uma e o corredor para que ela se abre é de sentido único. Tantos corredores inexplorados!

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