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Olho Clínico

Ce que je ne peux pas dire

Por Sara Teotónio Dinis

Emigrantes

O fenómeno repete-se todos os anos e começa a verificar-se no final do mês de Julho, prolongando-se até ao início de Setembro.

Eles chegam, vindos na sua grande maioria de França. Em carro próprio ou alugado, com a bandeira nacional ou com o símbolo do escudo e cruz, de corrente ao pescoço ou sem ela, com camisa aberta ou t-shirt néon, de sapatilha branca ou chinelo de dedo, isso não interessa agora particularmente.

Após a chegada acelerada às terrinhas deste Portugal e depois de encher devidamente a alma (e o estômago) do mimo e do petisco caseiros, eles tiram dois tempos das suas férias para se dirigir ao centro de saúde onde estão inscritos.

Trazem os boletins de vacinas e os resultados dos exames complementares de diagnóstico que fizeram em França no último ano. Já no gabinete médico, sentam-se frente à secretária, e depois dos bonjours e ça vas, começam a queixar-se:

— Pfff, isto aqui está ainda pior que no ano passado!… Meia hora à espera!?… Oh lá lá, na França isto não era assim, não!

Não lhes dói rigorosamente nada. Nós:

— Fazemos o que podemos; como vê, estamos a trabalhar desde que chegámos. Mas então, a que se deve a visita? Quais são as queixas?

— Ah, nenhumas! Ah! Ah! Ah! Não me dói nada, senhora doutora. Olhe, venho cá pedir os exames anuais e mostrar-lhe os outros que fiz lá nas consultas do hospital. Está tudo aqui, para a senhora ver.

Entregam um monte de relatórios em Francês, de exames feitos nas consultas de Oftalmologia, de Cardiologia, de Ginecologia, de Gastroenterologia, de Neurologia e de Psiquiatria, entre outros. Esperam que ali, em menos de quinze minutos, a médica deslinde o que lá está escrito e copie para o processo clínico informático, ao mesmo tempo que vai fazendo perguntas e recomendações.

A médica vai indagando:

— Então, está à espera da cirurgia das cataratas, é isso?

— Oui, mas lá não se espera anos como cá, hã?! Lá não é nada como cá!

— Vejo que fez prova de esforço e que os resultados foram inconclusivos… Fez cintigrafia cardíaca?

— Non!

— Então, o seu cardiologista não achou necessário?

— Ele não me disse nada, portanto é porque está tudo bem, non?

— Eu acho que seria melhor… Ora, disse que queria fazer exames?

— Sim, eh! eu quero fazer análises au sangue, sabe, colesterol, açúcar, à urina, e também à próstata, o normal!

— Sabe, eu não vejo necessidade de estar a fazer estas análises, dado que já fez esta bateria de exames e de análises na França, durante o último ano…

— Ah! Mas eu quero, non? Se eu quero, tenho direito! Eu sei que tenho os valores altos, quero ver como eles estão, n’est-ce pas?

— Pronto, aqui tem as suas análises.

Ai… Vamos lá respirar um bocadinho… Então, os senhores querem tudo porque sim? «Não há cá consulta para ninguém, o que eu quero é que você copie isso tudo para o computador e me passe o que eu quero fazer, e não faças muitas perguntas que eu tenho lá a malta toda a almoçar hoje, hã?»

E nós, o que fazemos? A vontade toda a suas excelências… Isto na França é que é bom, mas vamos lá não perder a nossa vaga na lista da médica; e que melhor maneira de fazê-lo, se não obrigá-la a ser tradutora, tipógrafa e secretária durante o tempo todo da consulta?

Se na França é que é bom, fiquem-se com os médicos de lá!

Mas vá, hã? Isto já são coisas que aqui a je não pode pas dire!

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