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Consultório da Ria

O capital no século XXI

Por Hugo Pinto de Abreu

Há acontecimentos que marcam a nós e à história, há acontecimentos que marcam um período da nossa vida, ou da vida colectiva. Penso que o ano de 2014, na Ciência Económica, se arrisca a ser o ano de «O capital no século XXI» [1], título do livro do economista e professor francês, Thomas Piketty, livro que está a causar grande sensação e discussão.

Lançado em 2013 na língua original — isto é, em Francês —, o livro foi recentemente — em Abril — lançado na sua versão inglesa e logo em meados de Maio atingiu o número um na categoria de livros não-ficção do New York Times. Tanto quanto sei, até ao momento não existe versão portuguesa lançada no nosso País.

Pareceu-me, portanto, adequado falar ao ouvinte deste livro, tornando-o o tema do «Consultório…» [2] de hoje.

Começo por dizer que este não é apenas um livro de Economia que se torna um best-seller. Apesar disso não ser algo que aconteça todos os dias, podemos lembrar-nos de fenómenos como os livros «O economista disfarçado» [3] e «Freakonomics» [4], livros de Economia que tiveram amplo sucesso e divulgação no público em geral, por exemplo, em Portugal.

De facto, estes dois livros que acabo de referir são, com todo o respeito, livros de Economia, sim, mas um pouco light. Já este livro de que hoje vos falo, «O capital no século XXI» [1], é, se me permitem, duma categoria totalmente distinta.

Desde logo, é um livro com cerca de 450 páginas! 450 páginas, caro ouvinte, das quais, confesso, ainda só li cerca de metade. Mas confesso ainda que, pela décima página, já estava conquistado por esta obra. Note, caro ouvinte, que não se trata dum livro técnico: na realidade, é um livro acessível e mesmo de leitura simpática — não digo fácil, mas simpática — para todos. Nota-se de forma evidente um grande esforço do autor para tornar o livro acessível ao grande público, isto é, para apresentar os conteúdos de tal forma que não fosse necessário ter formação de base em Economia para entender e apreciar o livro. Esta intenção é, aliás, declarada; e o autor estruturou o livro de forma a permitir que o leitor possa até «saltar» algumas partes do texto (que estão devidamente indicadas), se as achar demasiado técnicas, sem perder o seu conteúdo essencial.

Feita a apologia da forma, discutamos o conteúdo do livro. O título é, evidentemente, uma referência ao livro «O capital» [5], de Karl Marx, mas não se trata, contudo, duma obra neo-Marxista, mas sim duma análise e interpretação sistemática, abrangente, da economia contemporânea e, com base nas tendências actuais e na análise de dados históricos, duma tentativa de entender que economia e que sociedade futuras nos esperam.

Neste livro, Thomas Piketty coloca o foco, em especial, sobre a questão da desigualdade na distribuição da riqueza. Este é, sem dúvida, um tema muito interessante, muito apelativo: todos sentimos que a desigualdade avança a olhos vistos, depois de décadas em que a desigualdade parecia estar a reduzir-se; e a reduzir-se em Portugal com particular intensidade desde os anos sessenta.

Perante isto, procuramos respostas fáceis, mais ou menos acertadas. Mas, se quisermos respostas consistentes, este é o livro certo. Uma análise histórica dos dados económicos permite entender que a tendência actual de aumento da desigualdade da riqueza é consistente com a tendência que existia desde o século XIX, interrompida pelas duas guerras mundiais e pelo período de reconstrução e rápido crescimento económico, período de reconstrução e crescimento que em Portugal começou e acabou mais tarde do que na generalidade do mundo Ocidental.

Thomas Piketty apresenta-nos, sempre com abundante fundamentação, os desafios próprios duma economia de baixo (ou nulo) crescimento, ademais inserida no contexto duma sociedade com baixas taxas de natalidade. De facto, podemos estar perante o regresso dum contexto em que a forma mais comum de ser rico é nascer numa família rica, pelos seguintes motivos: uma época de baixo crescimento económico é uma época de menos oportunidades para enriquecer através do trabalho; e onde cada casal tenha, em média, menos de dois filhos, a riqueza não é dividida, ou é dividida apenas por dois ao passar de geração em geração.

Mas aquilo que me conquistou definitivamente neste livro, neste «O capital no século XXI» [1], foi a demonstração da vasta cultura do seu autor, uma cultura que vai muito para além de questões económicas. Assim, é frequente no livro o autor recorrer a exemplos retirados de romances clássicos, nomeadamente de Jane Austen [6] e de Balzac [7]. E são coisas deste tipo que distinguem um verdadeiro pensador dum mero técnico.

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