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A nova época

Por Carlos Lima

O chamado «defeso» é a parte mais importante da época para o adepto, pois é nessa fase que se decide quem são os jogadores da equipa do seu coração: as saídas para o dito encaixe financeiro, a dispensa dos jogadores que não corresponderam às expectativas e as aquisições.

O adepto vê em cada jogador que chega um reforço para a equipa, um salvador que vai colmatar aquela lacuna que ele há tanto criticava, porque acredita que quem gere o clube quer o melhor. Vê o jogador que sai para o estrangeiro como uma perda da equipa, mas o seu clube precisa de dinheiro e o jogador vai usufruir de condições que o seu clube não podia oferecer. Vê o jogador que é emprestado como uma oportunidade de evoluir sem sair do clube e vê o jogador dispensado, como um malandro que não devia ter posto os pés no clube, ou como o jogador que, tendo dado muito ao clube, já está «velho» e na altura de arrumar as chuteiras.

Em Portugal, ainda não percebi muito bem qual é a política de contratação de muitos clubes. Quem gere as contratações? Quem decide? Quem avalia? Quem contrata?

Em certos períodos e passando um pouco por todos os clubes, contratam-se tantos jogadores, que mais parece um entreposto comercial (se é que posso utilizar esta expressão para a contratação de seres humanos).

De há uns anos a esta parte, esta estratégia parece ter acalmado, por razões que dizem ser económicas; este ano, contudo, parece estar de volta. Quem mais ganhou viu os seus jogadores tão valorizados que quer aproveitar a oportunidade, ainda que me pareça a história da «galinha dos ovos de ouro». Quem perdeu parece que não gostou de perder e não está disposto a voltar a perder, ou então quer equilibrar as coisas. Outra realidade que parece ter parado é a contratação para o clube rival não contratar, ou seja: não era preciso melhor, apenas era importante impedir os rivais de melhorar. Esta estratégia era acompanhada duma política duvidosa de empréstimos. Hoje, existem as equipas B, mas não deixa de existir a dúvida se os que sobem ou descem seriam exactamente os mesmos, se as tais equipas B não existissem, porque elas não podem discutir a subida de divisão, ou seja, não estão investidas do mesmo intuito em cada jogo. O mais caricato é que as equipas B podem beneficiar dum leque mais alargado de jogadores do que as outras equipas, pois pode existir rotatividades com as equipas A. Adiante!

Importa mais neste espaço entender alguns critérios que devem presidir a uma boa contratação.

O primeiro é o colmatar uma necessidade da equipa — de preferência, que seja um acréscimo de valor, de competitividade, de criatividade, de fiabilidade e que tenha capacidade de aprender. Por vezes, os clubes apostam em jogadores jovens, com uma grande margem de progressão, porque valorizam mais e acrescentam boas possibilidades de negócio. Para isso, é importante que os seus departamentos técnicos sejam de grande capacidade de trabalho e flexibilidade, para valorizarem as escolhas e poderem começar de novo praticamente a cada ano. Pôr uma equipa a funcionar, com os processos defensivos e ofensivos devidamente articulados, demora tempo.

O segundo critério é conseguir uma equipa equilibrada, com os melhores jogadores possíveis por cada sector, de forma que o jogador tenha de lutar pelo lugar, para manter os níveis competitivos elevados, para permitir gerir períodos de quebra física ou de lesão, que acontecem ao longo duma época — mesmo que ela seja eximiamente planeada —, sem que a equipa se ressinta dessa ausência.

O terceiro critério é a maturidade; e tem a ver com a gestão do plantel. Ter uma equipa extremamente jovem pode significar desequilíbrios emocionais dentro do próprio jogo. O empenho está lá todo, mas a emotividade gera por vezes desequilíbrios em momentos chave. Conseguir uma equipa com gente que assuma a liderança dentro do campo é fundamental. Para isso, as contratações devem encaixar numa estrutura de base com alguns anos de experiência, de preferência em cada sector. Costuma-se dizer que há jogadores que até de olhos fechados fazem uma equipa jogar…

O quarto critério é aproveitar a oportunidade. Há jogadores que, num determinado momento, não interessam à equipa, mas os departamentos de prospecção têm observado uma progressão tal, que os departamentos técnicos chamam a si a responsabilidade de dar continuidade a esse trabalho. Estes são as chamadas surpresas, que, quando «cheiram» o lugar, não mais o largam.

Poderíamos falar de muitas outras razões, mas estas são um resumo da forma como vejo a construção duma equipa, no momento da contratação de jogadores. Contudo, é claro que aquilo que, na teoria, tem tudo para funcionar bem, na prática, precisa de continuidade e de muito, muito trabalho.

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