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O Fundamentalista Científico

Por que cremos em Deus? (I)

Por Satoshi Kanazawa [a]

Pergunta: Por que acreditamos em Deus?

Resposta: «Beavis and Butt-head» [2].

— Boa noite, pessoal! Regressem a casa em segurança e não se esqueçam de dar uma gorjeta à empregada

Confie em mim, está relacionado…

A chave da ligação entre Deus e «Beavis and Butt-head» são duas jovens estrelas em ascensão da psicologia evolutiva, Martie G. Haselton, da UCLA, e Daniel Nettle, da Universidade de Newcastle, e a sua incrivelmente genial Teoria da Gestão do Erro. Na minha opinião, a Teoria de Gestão do Erro representa a maior conquista teórica da psicologia evolutiva nos últimos anos.

Imagine uma cena típica em «Beavis snd Butt-head», numa das raras ocasiões em que os rapazes não estão sentados no sofá, a ver vídeos [b]. Portanto, o Beavis e o Butt-head caminham pela rua fora e passam por um par de raparigas jovens e atraentes, vestidas com as obrigatórias camisolas caveadas e calças justas. Quando as raparigas passam pelos rapazes, uma delas vira-se para o Beavis e o Butt-head, sorri, e diz:

— Olá!

Então, o que acontece? O Beavis e o Butt-head estacam, todas as suas funções cognitivas (dentro dos seus limites) param, e eles murmuram:

— Uau… Ela deseja-me… Ela quer brincadeira… Está no papo…

Independentemente do cómico que o mal-entendido do Beavis e do Butt-head possa parecer, os dados experimentais sugerem que sua reacção é muito comum entre os homens. Numa experiência típica, um homem e uma mulher mantêm uma conversa espontânea por alguns minutos. Sem o seu conhecimento, um observador do sexo masculino e outro do sexo feminino observar a interacção do par, por trás dum espelho unidirecional. Após a conversa acabar, os quatro (o participante masculino, o feminino, o observador masculino e o feminino) avaliam o quão interessado, do ponto de vista amoroso, estaria o participante do sexo feminino no do sexo masculino. Os dados mostram que o participante e o observador do sexo masculino frequentemente julgam o participante do sexo feminino mais interessado do que o participante e o observador do sexo feminino fazem. Os homens pensam que a mulher está a seduzir o homem, enquanto as mulheres não acham o mesmo.

Quer o leitor seja homem, quer seja mulher, se pensar na sua própria realidade por um minuto, verá rapidamente que esta é uma ocorrência muito comum. Um homem e uma mulher encontram-se e envolvem-se numa conversa amigável. Depois da conversa, o homem está convencido de que a mulher se sente atraída por si e talvez até queira dormir consigo, enquanto a mulher não partilha desse pensamento nem de longe nem de perto; ela está apenas a ser gentil e amigável. É um tema recorrente em muitas comédias românticas (assim como em praticamente todos os episódios da série «Um é pouco, dois é bom, três é demais» [4] — estou a namorar comigo mesmo?) Por que é que isto acontece?

A Teoria da Gestão do Erro de Haselton e Nettle oferece uma explicação muito convincente. A sua teoria começa com a observação de que a tomada de decisão em situações de incerteza muitas vezes resulta em conclusões erradas, mas alguns erros têm consequências mais graves do que outros. A evolução deve, portanto, favorecer um sistema de inferência que minimize, não o número total de erros, mas os seus custos totais.

Por exemplo, no caso em apreço, o homem tem de decidir, na ausência de informação completa, se a mulher está interessada nele ou não. Se ele conclui que ela está, quando ela está, de facto, interessada, ou se ele deduz que ela não está, quando ela, na verdade, não está interessada, então ele fez a inferência correcta. Nos outros dois casos, no entanto, ele cometeu um erro na inferência. Se ele deduz que ela está interessada, quando ela, na verdade, não está interessada, então ele cometeu um erro de falso positivo (a que os estatísticos chamam erro do tipo I). Pelo contrário, se ele conclui que ela não está interessada, quando ela, de facto, está interessada, então ele cometeu um erro de falso negativo (a que os estatísticos chamam erro do tipo II). Quais são as consequências dos erros de falsos positivos e de falsos negativos?

Se ele cometeu o erro de concluir que ela está interessada, quando ela não está, então ele aproxima-se dela e acaba por ser rejeitado, gozado e, possivelmente, leva uma estalada na cara. Se ele cometeu o erro de concluir que ela não está interessada quando ela está, então ele perdeu uma oportunidade de ter sexo e, possivelmente, reproduzir-se. Por muito mau que ser rejeitado e gozado possa ser (e, confie em mim, é mau), não é nada comparado com desperdição uma genuína oportunidade de ter sexo. Então, Haselton e Nettle argumentam que a evolução equipou os homens para sobre-inferir interesse romântico e sexual das mulheres neles, de modo que, embora possam cometer um grande número de erros de falso positivo (e, por consequência, passar o tempo a levar estaladas), eles nunca deixarão escapar uma oportunidade de ter sexo.

Entre os engenheiros, isto é conhecido como o «princípio do detector de fumo». Tal como a evolução, os engenheiros constroem detectores de fumo que minimizam, não o número total de erros, mas os seus custos totais. A consequência dum erro de falso positivo dum detector de fumo é acordar o proprietário às três horas da manhã por um alarme estridente e não haver fogo. A consequência dum erro de falso negativo é o seu proprietário e toda a sua família morrerem, quando o alarme falhar em havendo um incêndio. Por mais desagradável que ser acordado no meio da noite sem motivo possa ser, não é nada, comparado com estar morto. Assim, os engenheiros fazem deliberadamente detectores de fumo extremamente sensíveis, de modo que eles produzem um monte de alarmes falsos positivos, mas nenhum silêncio falso negativo. Haselton e Nettle argumentam que a evolução, na qualidade de engenheira da vida, projectou sistema de inferência dos homens da mesma forma.

Então, é por isso que os homens sempre fazem avanços junto das mulheres e dão passos indesejáveis a toda a hora. Mas o que é que isto tem a ver com a nossa crença em Deus? Explicarei no meu próximo artigo. Confie em mim, está relacionado.


Notas:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

b: Eu já não vejo a MTV desde 1994, pelo que espero que a série deles ainda exista. Caso contrário, eu poderia muito bem estar a falar sobre o Uncle Miltie [3] e o «Texaco Star Theater» (n. do A.)

3 comentários a “Por que cremos em Deus? (I)”

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