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O novo nacionalismo é gay?

Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Este artigo do Le Monde [1] apresenta uma perspectiva interessante sobre como, enquanto se defende um tipo de igualdade, pode simultaneamente estar a promover-se outro tipo de desigualdade. Tudo começou em 2010, com a recusa de Judith Butler [2] em receber um prémio de coragem cívica que lhe fora atribuído, com a justificação de que o movimento LGBT se teria deixado instrumentalizar por um Ocidente que faria tanto as suas guerras no Oriente como as suas cargas policiais nos subúrbios em nome da democracia sexual.

No ano seguinte, o tema voltou a uma conferência, em que se chamou a atenção para o facto dos direitos dos homossexuais se terem convertido numa bandeira dos nacionalistas, que os apresentam como um progresso Ocidental, ameaçado pelo Islão. De facto, tanto nos EUA, como um pouco por toda a Europa, as manifestações do orgulho gay e o activismo LGBT em geral têm surgido em contextos provocatórios relativamente ao Islão. Em França, nomeadamente, foi polémica a frase que iria encabeçar a marcha do orgulho gay: «pela igualdade, em 2011 em marcho, em 2012 eu voto», encimada por um galo (o animal símbolo nacional), por excluir todos os imigrantes, legais e ilegais, da luta pela igualdade nas questões LGBT. Contudo, os movimentos e as associações no terreno consideram que esta é uma discussão académica infundada, aludindo, em sua defesa, às suas colaborações internacionais.

Ainda assim, nem sempre o nacionalismo, encorpado pelos partidos conservadores de extrema-direita na Europa, se aproxima do movimento LGBT. Em França, o movimento LGBT e a extrema-direita são ideologias distintas; mas, nos Países Baixos, a suposta homofobia dos imigrantes é usada pela extrema-direita como argumento para os deixar à porta. Os homossexuais muçulmanos vêem-se, pois, perante uma luta em duas frentes: por um lado, têm de combater a homofobia, à semelhança dos movimentos LGBT ocidentais; mas têm, além disso, de combater a islamofobia dentro dos próprios movimentos LGBT.

Simultaneamente, ao associar o nacionalismo e a luta contra a homofobia, a mensagem passada é a de que o problema da homofobia está resolvido no Ocidente, ao mesmo tempo que se procura impor externamente os próprios valores ocidentais, numa forma de aculturação. Ora, a realidade mostra que, embora o problema não esteja, realmente, resolvido no Ocidente, ele é mais grave nos países islâmicos do que na Europa; mesmo nesta, a homofobia manifesta-se mais nas regiões de imigração do que nas restantes. O movimento LGBT tem, pois de fazer face a todos os tipos de discriminação, batendo-se pela igualdade, onde quer que tal luta se mostre necessária — seja contra a homofobia nos países onde ela existe, seja contra o racismo.

Esta luta significa, por exemplo, apoiar os refugiados que procuram asilo devido à sua orientação sexual. Significa também assumir sem rodeios que existe o risco de cair em contradição e de terminar associado a outras lutas ideológicas, precisamente porque várias lutas e ideologias se cruzam no Ocidente. No fim de contas, é fundamental evitar que o debate obrigue a escolher entre duas barricadas: a da homofobia e a da xenofobia.


Nota:

a: O artigo original pode ser lido no Le Monde [1].

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