Categorias
Vistas do Banco

Aprender, inovar e empreender

Por Carlos Lima

Decorreram em Julho os campeonatos da Europa de juniores de ciclismo de pista, no Velódromo Nacional, em Sangalhos, no distrito de Aveiro. Decorreram em Agosto os campeonatos da Europa de atletismo, em Zurique, na Suíça, e decorreram em Setembro os campeonatos do mundo de juniores de ciclismo de pista, em Gwang Meyong, na Coreia do Sul.

Do primeiro e do último, poucos ouviram falar; do segundo, muito se falou. O que é curioso é que, no primeiro e no último, houve medalhas e medalhas de ouro para Portugal; no segundo, houve uma medalha de bronze (meritória, com certeza). Do primeiro e do último, quase não houve notícias — e, quando as houve, foi num cantinho dos jornais desportivos. Do segundo, várias notícias se centraram na inconstância dos atletas portugueses e nos resultados que se esperavam (na perspectiva da comunicação social), nos resultados que se desejavam (na perspectiva dos atletas) e nos apoios e subsídios de que tanto necessitavam e mereciam (na perspectiva dos dirigentes).

Esta discrepância de tratamento mostra que muita gente anda entretida a falar do que se não faz e se esquece do que de muito bom já se faz. Nem precisamos de entrar aqui com o futebol, que, pela mão da selecção, encheu páginas e abriu telejornais.

Na sociedade portuguesa, também se fala muito do que deveria ser este ou aquele cargo; do que os ministros, os políticos e o presidente deveriam fazer. Faz-se comentários sobre o que disseram, o que não disseram, faz-se comentários sobre os comentários e tudo parece uma «pescadinha de rabo na boca» — ou seja: ninguém sai do mesmo sítio, e o trabalho continua a fazer-se, onde há gente capaz e competente para fazê-lo. Disso, como sempre, ninguém fala.

O que se falou sobre o campeonato do mundo de atletismo foi muito pouco, para aquilo que realmente aconteceu. A delegação portuguesa levou 44 atletas, distribuídos por uma série de especialidades, que são pouco comuns em Portugal. Antes, levava-se muitos atletas de fundo e meio fundo e apenas meia dúzia de atletas de especialidades como salto com vara, salto em altura, lançamento do peso, e velocidade, etc. Hoje, são mais os atletas destas especialidades e com resultados dignos de nota, pela evolução. O que mudou?

Nas modalidades de grande especificidade, um ínfimo pormenor põe tudo a perder — e os portugueses, diz-se, «falham nos momentos chave». Não penso assim; penso é que tudo o que exige trabalho tem de ser trabalhado sem luzes, sem holofotes, sem câmaras, mas com o brilhantismo de equipas — e equipas não são atletas; são atletas, treinadores, preparadores físicos, equipas médicas, psicólogos, pessoal de conservação dos recintos, patrocinadores e público. Penso também que os portugueses são tão bons como os melhores, mas precisam de ganhar a consistência de trabalho, a tal que demonstram quando são colocados entre os melhores e não quando têm ao lado aqueles para quem «tanto faz como fez, o que interessa é que caia no fim do mês».

Parece-me que hoje se fala numa nova vaga de emigrantes — e é verdade que tem saído de Portugal imensa gente para trabalhar no estrangeiro. A grande diferença em relação aos anos sessenta e setenta do século passado é que hoje está a sair gente com formação e muita qualificação — o que quer dizer que formamos com qualidade, pois somos aceites sem receio nos outros países. Há que reforçar que, nas duas gerações, sempre saíram empreendedores, que mostraram a qualidade dos Portugueses; a grande diferença é que uns saíram como trabalhadores indiferenciados e os outros como trabalhadores especializados. Uns saíram para trabalhos «brutos»; outros estão a sair para trabalhos especializados.

O que o atletismo e o ciclismo de pista têm vindo a mostrar é que somos capazes. O que o ténis de mesa e a canoagem têm vindo a mostrar é que, quando somos colocados com os melhores e usufruímos das mesmas condições que eles, melhoramos e saímo-nos tão bem como os melhores. Então, por que razão vivemos das lamúrias dalguns e dalgumas modalidades?

Prioridades, meu caro leitor, prioridades… É altura de dar voz aos visionários que construíram o velódromo, sabendo que isso criaria as condições para os nossos atletas poderem desenvolver a modalidade. É preciso apoiar os visionários que construíram as pistas de canoagem para a alta competição, para que os atletas pudessem treinar nas mesmas condições em que vão competir. É preciso que se deixe um certo amadorismo e voluntarismo dalguns, agarrados ao poder da fotografia social, para dar origem a equipas completas, capazes de trabalhar todos os aspectos da preparação (incluindo o tempo), sem esquecer que, para a gente anónima que tanto faz por tantas modalidades, basta uma palavra de reconhecimento no momento do sucesso.

É preciso modificar a mentalidade daqueles que criam programas e programas para falar sempre do mesmo, para que passem a patrocinar e publicitar o que de bom se faz em Portugal, quer no desporto que na sociedade em geral. Só assim teremos um País competitivo e motivado para aprender, inovar e empreender.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *