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Ética do quarto-de-banho

Por Gustavo Martins-Coelho

Nunca cheguei a concluir a dissertação sobre a ética do quarto-de-banho [1]. Em primeiro lugar, creio que importa esclarecer o nome da divisão. Compreendo que se façam coisas no quarto-de-banho de tal transcendência, que possa parecer que mereçam uma casa inteira para serem levadas a cabo. Mas, lamento, não é uma casa-de-banho, é um quarto. Uma casa é uma unidade de habitação. Cada casa tem vários quartos, um (ou mais do que um) deles destinado ao banho e afins — o quarto-de-banho. Ter uma casa inteira só para o banho é manifestamente excessivo e já não se usa desde os tempos do império romano. O que foi uma pena, pois tornou necessária a invenção do perfume, para disfarçar o mau cheiro.

Homem que se preze usa sempre o urinol mais longe da porta do quarto-de-banho. Se, entretanto, entrar outro homem, este usa o urinol mais longe do que já está ocupado. Um terceiro homem que precise de verter as suas águas [2] só pode usar um urinol, se houver forma de deixar um de intervalo entre cada um dos outros utilizadores. Se tal não for possível, vai para um dos cubículos.

A cabeça só pode olhar para cima, ou para baixo. Os únicos pontos de interesse são a parede em frente (o publicitário que se lembrou de lhe dar uso é um génio) ou a base do urinol. Alguns têm uma mosca pintada, para entreter. Na Alemanha, por altura do Mundial de futebol, tinham uma baliza — giríssimo!

Em caso algum pode a cabeça de qualquer homem ao urinol rodar para a esquerda ou para a direita. Observações laterais, só se quiser, deliberadamente, apreciar a vista. Já vi acontecer. Mas não é bonito — é mesmo um bocadinho, vá, badalhoco [3]. Que vá a uma casa de strip masculino e se deleite, se for caso disso. A mim, ninguém paga para me deixar observar.

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