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Consultório da Ria

A Lei de Gresham

Por Hugo Pinto de Abreu

Quem, em 2004 — já lá vão dez anos! —, já seguisse a vida pública e política, poderá recordar-se dum famoso artigo [1], publicado no semanário Expresso [2], assinado pelo então ex-primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva (hoje, Presidente da República), sobre a boa e a má moeda, naquilo que foi considerado um ataque ao Governo de Pedro Santana Lopes, que viria a cair pouco depois, em virtude da decisão do então Presidente da República, Jorge Sampaio, de dissolver a Assembleia da República e de convocar eleições legislativas.

O artigo estava cheio de comparações e de metáforas económicas para se referir à fraca qualidade dos agentes políticos e às razões pelas quais, na sua opinião, os quadros técnicos mais competentes e qualificados tendem a evitar envolver-se activamente na vida política. Além de ter caído como uma bomba no contexto político-governativo de então, o artigo ficou conhecido como o artigo da «boa moeda e da má moeda», naquilo que se entendeu ser um ataque mais ou menos velado ao então chefe do Governo, Santana Lopes, a «má moeda».

Mas que teoria é esta, a da boa e má moeda, a que Cavaco Silva se referiu? Trata-se da chamada Lei de Gresham, que afirma que, em determinadas condições, a moeda má expulsa a moeda boa.

O que quer isto dizer? Não será mais uma bizantinice, uma coisa rebuscada de economistas? Ora, não deveria a boa moeda expulsar a má? A evolução, a selecção natural não é isso?

Estive a pensar na melhor forma de explicar este fenómeno e o melhor ponto de partida parece-me este: admitamos que recebe, como troco duma qualquer compra, uma nota de dez euros, consideravelmente danificada. Imagine também que guarda, em casa ou na carteira, uma pequena reserva de dinheiro. Naturalmente, tenderá, se quiser guardar dez euros na sua reserva, a guardar uma nota em bom estado, e a passar a nota em mau estado para outro, por exemplo, usando-a para a próxima compra.

Não era exactamente isto que Gresham tinha em mente, mas penso ser uma boa primeira abordagem. A lei da boa e da má moeda foi concebida num tempo em que a moeda era geralmente composta de metais preciosos (prata, ouro, cobre). Ora, por vezes, os Estados e os Príncipes enfraqueciam a moeda: por exemplo, uma libra de ouro (e libra, antes de ser uma moeda, é antes de mais uma unidade de peso) deixava de ter efectivamente uma libra de ouro e passava a ter somente o peso de meia libra.

Neste caso, as moedas antigas, as moedas com o rótulo de 1 libra que tivessem efetivamente o peso de uma libra seriam as moedas boas, e as moedas novas, as moedas com o rótulo de 1 libra mas efectivamente só com meia libra de peso em ouro, seriam as moedas más. Como é evidente, ninguém em condições normais estaria disposto a entregar uma moeda boa, quando poderia — porque o Estado decretara que valiam o mesmo — usar uma moeda com apenas metade do valor metálico. Assim, a moeda boa desapareceria rapidamente de circulação, e poderia valer a pena derretê-la para ficar com o seu valor metálico em bruto.

É por isto, nestas condições, que a má moeda expulsa a boa moeda: quando o Estado ou autoridade semelhante decreta que são iguais. Isto, caro ouvinte, dá, na realidade, muito que pensar.

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