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O papel das doenças psiquiátricas na história religiosa (I)

Por Gustavo Martins-Coelho [a]

A reflexão dos autores foi desencadeada por um doente que afirmava ter sido escolhido por Deus para guiar a humanidade e recusava a medicação anti-psicótica, por esta lhe retirar as suas faculdades messiânicas — nomeadamente, ler os pensamentos alheios e ouvir vozes, que lhe revelavam segredos. Ora, tendo em conta que 1% dos doentes que recorrem ao serviço de urgência nos Estados Unidos da América apresentam sintomas psicóticos, que 60% dos doentes esquizofrénicos apresentam delírios de tipo religioso e que metade desses mesmos doentes não tem noção do seu estado mental, é inevitável levantar a questão: como se distingue um doente psicótico duma real figura religiosa?

Os autores reviram a bibliografia existente sobre o tema e identificaram uma lacuna na discussão deste assunto, à luz dos modernos princípios da Neuropsiquiatria e da Neurologia comportamental, pelo que decidiram utilizar tais ferramentas no intuito de promover o diálogo académico sobre o papel que indivíduos com sintomas psicóticos terão desempenhado no desenvolvimento da civilização ocidental.

Abraão

A figura de Abraão é alvo de debate — tanto em termos da sua real existência, como no que diz respeito à delimitação temporal dos factos descritos a seu respeito. A história de Abraão inclui a descrição de experiências místicas de tipo auditivo e visual, cuja ocorrência influenciou, algumas vezes decisivamente, a sua vida e a dos que o rodeavam, nomeadamente o seu filho Isaac. À luz do manual de diagnóstico de doenças psiquiátricas, o DSM-IV-TR, estas experiências podem ser classificadas como alucinações auditivas e visuais, delírios de tipo religioso e pensamento de tipo paranóide, sintomas que se encontram presentes em várias doenças psiquiátricas, incluindo a esquizofrenia (embora a descrição bíblica de Abraão não cumpra todos os critérios de diagnóstico desta doença).

Outras possibilidades de diagnóstico, relativamente a Abraão, incluem o uso de substâncias psicoactivas capazes de induzir experiências religiosas, bem como tipos de epilepsia que se associam a este tipo de experiências, embora ambas as possibilidades sejam improváveis — o que reforça a possibilidade de nos encontrarmos perante um caso de doença psicótica. Dado que a esquizofrenia costuma ser acompanhada de pensamento referencial e capacidade reduzida em levar uma vida normal, limitações que, segundo as Escrituras, Abraão não apresenta, os autores sugerem, como hipótese de diagnóstico mais provável, um subtipo paranóide de esquizofrenia, que habitualmente não se faz acompanhar dos sintomas referidos.

Moisés

A descrição bíblica de Moisés é mais detalhada do que a de Abraão. As suas experiências perceptuais e os seus comportamentos podem ser classificados, segundo o DSM-IV-TR, como alucinações visuais de comando, alucinações auditivas, hiper-religiosidade, grandiosidade, delírios, paranóia, dispersão de pensamento e fobia. Muitos destes sintomas podem ocorrer na esquizofrenia, nas doenças afectivas e na perturbação esquizoafectiva. A vida de Moisés preenche todos os critérios de diagnóstico de esquizofrenia: alucinações e delírios; diminuição da aptidão social (de membro da família real a pastor…); longa duração dos sintomas (quarenta anos); e baixa probabilidade de perturbação do humor (um líder deprimido dificilmente conseguiria fazer um povo segui-lo). No entanto, dada a sua hipergrafia (patente no Pentateuco), que é característica das perturbações afectivas, não é de todo possível excluir uma psicose associada a este tipo de patologia, no caso de Moisés. Por outro lado, a descrição bíblica de que Moisés terá vivido uma vida longa exclui a possibilidade de nos encontrarmos perante uma doença degenerativa neurológica, passível de explicar os seus sintomas, não havendo também qualquer indicação de que os mesmos possam ter sido desencadeados pelo uso de substâncias psicoactivas. A esquizofrenia paranóide é um diagnóstico possível, se se considerar que o comportamento de Moisés reflecte alguma propensão para a violência, o que é característico desta doença. Por outro lado, se se admitir que os primeiros cinco livros da Bíblia são da autoria de Moisés, então uma perturbação afectiva volta a estar em cima da mesa, como explicação para a sua hipergrafia.

Jesus

A figura fundadora do Cristianismo apresentou comportamentos que o DSM-IV-TR classifica como alucinações visuais e auditivas, delírios, pensamento referencial, pensamento de tipo paranóide e hiper-religiosidade. O Novo Testamento não refere sintomas sugestivos de doença neurológica ou de perturbações afectivas, mas uma hipótese lícita quanto à causa da sintomatologia de Jesus é a presença de subnutrição ou de alterações metabólicas, nomeadamente durante o seu jejum de quarenta dias no deserto (embora esta explicação não colha, relativamente às alterações prévias e posteriores a este episódio). De igual forma, embora seja possível estarmos perante sintomas psicóticos associados à epilepsia, a ausência duma história compatível com epilepsia coloca esta como uma hipótese remota. A ausência de doenças orgânicas e de epilepsia aparente deixa, portanto, as etiologias psiquiátricas primárias como hipóteses mais plausíveis. À semelhança dos restantes casos, as experiências de Jesus podem ser conceptualizadas no quadro da esquizofrenia paranóide. Acresce que o risco de suicídio está aumentado nos doentes esquizofrénicos; embora Jesus não se tenha matado, existe um paralelo potencial entre os seus actos e comportamentos que levaram à sua morte e os actos típicos de quem premedita um suicídio por procuração (um estado em que o indivíduo intencionalmente conduz terceiros a provocar-lhe a morte).

São Paulo

Tem-se especulado que as experiências religiosas de S. Paulo resultem duma epilepsia do lobo temporal. No entanto, atentando nas suas epístolas, é possível identificar alterações marcadas do humor, bem como experiências perceptuais auditivas e visuais de tipo alucinatório, delírios e paranóia. Todos estes sintomas são típicos de doenças psicóticas primárias, ou associadas a perturbações afectivas. A referência a um espinho na carne, enviado por Satanás, na sua epístola aos Coríntios, tem sido interpretado como uma referência à epilepsia, a outra doença orgânica, à oposição dos Judeus, ou realmente a um espírito maligno. Os autores sugerem que poderia tratar-se duma voz, que assediaria S. Paulo com comentários negativos, o que é típico da esquizofrenia. Por outro lado, embora a interacção de S. Paulo com as suas visões seja atípica duma situação de epilepsia, o santo apresenta vários outros sinais de epilepsia: emoções profundas; pensamento circunstancial; preocupação intensa com assuntos morais, filosóficos e religiosos; hipergrafia; e hipossexualidade. Contudo, estes sinais podem estar presentes noutras patologias, como a doença bipolar e a esquizofrenia. Em particular, a sua tendência para a escrita é mais sugestiva duma perturbação afectiva, do que de epilepsia ou de esquizofrenia. Existe debate quanto ao significado literal ou metafórico da cegueira de S. Paulo, quando da sua conversão, na estrada de Damasco. Se se interpretar literalmente essa passagem, então é lícito especular sobre a presença duma perturbação de conversão, dado que a história não encaixa em nenhuma patologia ocular ou do processamento nervoso visual de causa orgânica conhecida.


Nota:

a: O artigo original pode ser lido no The Journal of Neuropsychiatry [1].

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