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O Fundamentalista Científico

A liberdade de imprensa pode não ser necessariamente uma coisa boa

Por Satoshi Kanazawa [a]

Na civilização ocidental, a liberdade de imprensa é geralmente considerada uma coisa boa. E, naturalmente, em grande medida, é verdade que sim, especialmente quando significa a ausência de controlo e interferência por parte do governo. No entanto, depois de viver há cinco anos [b] no Reino Unido, posso dizer-lhe que a liberdade absoluta e completa da imprensa pode não ser necessariamente uma coisa boa.

De acordo com o índice anual de liberdade de imprensa [2] dos Repórteres sem Fronteiras, o Reino Unido ocupava em 2007 o 24.º lugar no mundo, em termos de liberdade de imprensa, com um índice de 8,25. Em comparação, os Estados Unidos ocupavam o 48.º lugar no mundo, com um índice de 14,50 [c]. É verdade, tal como os índices RSF sugerem, que a imprensa britânica é muito mais livre e opera sob menos restrições do que a imprensa americana. Infelizmente, no entanto, uma das restrições de que a imprensa britânica está livre é a verdade.

Tendo lidado bastante com repórteres em ambos os lados do Atlântico, tenho ao longo dos anos sentido grandes diferenças entre a forma como os jornais americanos e britânicos operam. Nos EUA, acontece algo digno de figurar nas notícias e os jornais correm para o incidente (literal e figurativamente), para ser o primeiro a noticiá-lo. No Reino Unido, os jornais inventam coisas e esperam que um número suficiente de leitores acredite neles e, assim, as suas invenções se tornem realidade na mente dos leitores. Por outras palavras, a imprensa britânica é tão livre e tem tão poucas restrições a observar, que é em grande parte irresponsável, no que toca a relatar a verdade.

Pelos padrões americanos, todos os jornais britânicos principais são tablóides, como o National Enquirer. A diferença é que a maioria dos americanos sabem que o que lêem nas páginas do National Enquirer é ficção e entretenimento. A maioria dos britânicos não sabe o mesmo sobre o Guardian. É verdade que todos os jornais americanos têm o seu próprio cariz ideológico e as suas opiniões, mas são pelo menos responsáveis ​​pelo que dizem. Se for descoberto que o que eles noticiaram não é factualmente verdadeiro, os jornais americanos são obrigados a pedir desculpa pelo erro e a retirar a notícia errada; e sua reputação sofre muito com isso.

Eu sabia tudo isto com base na minha própria experiência pessoal e na experiência dos meus amigos e colegas, sobre quem os jornais britânicos inventaram muitas vezes coisas nas suas reportagens. Mas foi com alguma bonomia que descobri recentemente que esta é a posição oficial do governo britânico.

O ministério da administração interna britânico publica um livro intitulado: «Life in the United Kingdom: A Journey to Citizenship» [3]. É um pequeno livro que todos os imigrantes devem ler e estudar, quando se preparam para o teste de cidadania britânica, dado que todas as questões da prova provêm do material abordado no livro. Há um capítulo que discute todas as grandes instituições britânicas; e uma pequena parte do capítulo é sobre a comunicação social. E diz:

O Reino Unido tem uma imprensa livre, o que significa que o que está escrito nos jornais é independente do controlo do governo. Os proprietários e os editores de jornais possuem opiniões políticas vincadas e levam a cabo campanhas para tentar influenciar as políticas governamentais e a opinião pública. Por consequência, às vezes é difícil distinguir factos de opiniões, na cobertura jornalística (p. 49).

Por outras palavras, não se pode acreditar textualmente em tudo o que se lê nos jornais britânicos. É difícil imaginar o Departamento de Estado dos EUA a publicar uma declaração oficial semelhante a esta, sobre os jornais americanos.

A imprensa não deve ser totalmente livre. Deve haver algumas restrições colocadas sobre si, e uma das maiores restrições deve ser a verdade.


Notas:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

b: Este artigo foi originalmente publicado em 10.IV.2008 (n. do T.).

c: Quanto menor o índice, maior a liberdade da imprensa (n. do A.).

2 comentários a “A liberdade de imprensa pode não ser necessariamente uma coisa boa”

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