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Consultório da Ria

Histórias de Economia: Europa 1453

Por Hugo Pinto de Abreu

O título que escolhi para o «Consultório…» [1] de hoje foi «Europa 1453». Os ouvintes mais versados em História poderão reconhecer que a data não é inocente: a 29 de Maio desse mesmo ano, 1453, caía a cidade de Constantinopla às mãos dos turco-otomanos [2], e, com ela, o Império Romano do Oriente (o Império Bizantino): a maior parte dos historiadores usa este evento para marcar o fim da Idade Média e o início da época moderna.

Para entendermos o presente, é indispensável compreender o passado. Na realidade, o ano de 1453 é relativamente recente, e precisaríamos, portanto, de recuar muito mais. Todavia, como o ouvinte sabe, a nossa memória colectiva é fraca e, se cinco anos parece muito tempo, o que dizer de mais de quinhentos?

Convido-o, então, a olharmos para a Europa nesse ano; convido-o a tirarmos uma fotografia que nos mostre o que aconteceu e o que estava prestes a acontecer; convido-o, se quiser, a recuarmos simbolicamente ao dia 30 de Maio de 1453, a perceber o que mudou e quais os «ventos da mudança» (se o ouvinte me permite a expressão anacrónica) que em breve soprariam.

Conquistar Constantinopla (que passou a ter o nome de Istambul) significou o fim do grande adversário do Império Turco no Oriente, facilitando a conquista do que restava da Grécia, dos Balcãs e mesmo da Hungria, chegando os turco-otomanos a ameaçar, por várias vezes, Viena, a capital da Áustria, que já era poderosa em 1453 e muito mais se tornaria [3], até ao seu declínio bem evidente às mãos de Napoleão e consumado no final da Primeira Guerra Mundial — conflito do qual se cumprem, aliás, cem anos no presente ano de 2014. Mais, conquistar Constantinopla significou o controlo total sobre o estreito do Bósforo, a única entrada para o Mar Negro a partir do Mar Mediterrâneo. Os Otomanos passariam assim a dominar o comércio com o Oriente; e até os entrepostos genoveses na Crimeia [4] ficaram postos em xeque e acabariam por cair. Quanto à herança bizantina, recairia em parte na Europa Ocidental, com a imigração de muitos intelectuais, que teriam um papel no Renascimento; já a herança espiritual, Ortodoxa, recairia em Moscovo [5], naquilo que ainda não era, mas viria a ser, o gigante a que hoje chamamos Rússia.

Ora, a vitória turca punha fim ao sonho de reconquista Cristã do Próximo e Médio Oriente. Assim sendo, só havia uma forma de recuperar o lucro no comércio com o Oriente: contornar os Otomanos (cercando-os, se possível) e chegar à Índia e à China por mar. Portugal e Castela lançar-se-iam nesta importante aventura, como o ouvinte tão bem sabe.

Entretanto, na Europa, terminara nesse ano a chamada Guerra dos Cem Anos: uma França vitoriosa dava os primeiros sinais de hegemonia continental. Porém, estava ainda dividida, com vastos territórios pertencentes ao Ducado da Borgonha [6]. Além disso, em terras desse mesmo Ducado de Borgonha, um gigante económico estava ainda, de certa forma, politicamente adormecido: chamar-lhe-iam os Países Baixos. Mas isso é já uma outra história de economia.

2 comentários a “Histórias de Economia: Europa 1453”

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