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Olho Clínico

A especialidade da felicidade

Por Sara Teotónio Dinis

Os recém-licenciados em Medicina que terminaram o curso em 2013 estão a caminhar a passos largos para o seu momento de escolha da especialidade médica.

A menos de dois meses da decisão final, os mais indecisos ainda andam a recolher informações sobre as várias «cartas» que mantêm em cima da mesa. Frente à questão do «que farias, se fosses tu?», ou até mesmo à clássica «o que será melhor?», há aqueles que prontificam logo a opção favorita, outros que adicionam prós e contras às alternativas disponíveis e outros que, por não saberem bem o que dizer, optam por encolher os ombros e sorrir, naquela linguagem corporal de quem já fez a sua escolha «e sabe Deus, portanto agora vira-te, que cada um sabe da sua».

Digamos que não serão muitos aqueles que estarão realmente indecisos… Nisto das decisões, tem de se concordar que a nota da PNS (Prova Nacional de Seriação, vulgo Harrison’s) até vem ajudar — (in)felizmente. Mas a grande questão que pede resposta é só esta:

— O que queres tu desta vida?

— Ser feliz — dirão todos. Resposta fácil! O difícil é perceber como é que isso se consegue. Como é que uma pessoa conseguirá ser efectivamente feliz?… Que opções terá de tomar, para chegar até lá? E o «lá» traduz-se em quê?

Filosofias, psicologias e especulações à parte, uma forma relativamente simples de começar a vislumbrar algumas respostas é tentar projectar o futuro de forma prática, tentando traduzi-lo em aspectos reais, com um intervalo de, por exemplo, cinco anos, e respondendo a questões como as seguintes:

— O que é que eu quero estar a fazer daqui a cinco anos? Enraizar a dar consultas? Enclausurar-me no bloco operatório? Fazer quilómetros numa enfermaria?

— Quero ter casa própria ou comprar antes um carro?

— Quero casar? Ou começar a planear ter filhos?

— Ou quero começar a planear isso só daqui a dez anos?

— Quero ganhar muito dinheiro? Ou quero ganhar mesmo muito dinheiro?

— Quero dar-me a grandes luxos, ou prefiro o tempo precioso que posso passar com aqueles de quem gosto?

— Quero fazer uma pós-graduação? Ou atirar-me de cabeça para um doutoramento?

— Quero ser orientador de formação? Ou tentar um lugar como assistente na faculdade?

— Quero ser o perito numa área específica da minha especialidade?

— Quero ser Prémio Nobel da Medicina?

Quando na mesa está um rol de cartas tão díspares como Cirurgia Geral, Medicina Interna, Pediatria, Dermatologia, Medicina Geral e Familiar (e há tantas mais!), poderá ser útil dispender algum tempo a meditar sobre isto. Porque, no fundo, a nossa vida é esta! Não se pode estar a adiar tudo aquilo que se quer nesta vida, em prol da nossa profissão, nem a decidir fazer para a vida um trabalho que nos pode consumir o corpo e a cabeça de tal forma que nos impeça de fazer tudo o resto.

É certo que esta é uma profissão como há poucas — é uma arte que não nos largará nunca — nem à noite, nem nas férias, nem nas folgas, nem na reforma. Não deixa de ser o nosso ganha-pão, uma parte daquilo que somos — mas há tanto mais em nós! Há tantas coisas que queremos fazer para além disto, tantos lugares que queremos visitar, tantas pessoas com quem queremos estar…

O tempo escorre-nos pelos dedos, como areia fina. Entrámos nesta vida com dezoito anos e saíremos dela passados mais doze — já com trinta (e com umas quantas coisas a que a idade dá direito). Alguém muito sabiamente me ensinou, com a sua voz de rádio e sabedoria de velhote, que «o tempo é o nosso bem mais precioso». As perdas deste ano reforçaram a ideia da sua fugacidade e da certeza de que não ficamos neste mundo, nem tão pouco sabemos quando vamos partir. Que queremos fazer com o tempo — o nosso? Como é que o queremos gastar?

A especialidade a escolher terá certamente um nome próprio. Mas, acima de tudo, tem de ser a especialidade da felicidade — de quem a escolher.

3 comentários a “A especialidade da felicidade”

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