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O papel das doenças psiquiátricas na história religiosa (II)

Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Este artigo conclui a resenha do artigo publicado no The Journal of Neuropsychiatry, iniciada na quinzena passada [1].

Comentário sobre o diagnóstico diferencial

A maioria das revelações vividas pelas personagens estudadas ocorreu durante a vigília, pelo que os sonhos não são uma explicação plausível para as mesmas. Entretanto, independentemente das psicoses referidas terem origem idiopática ou orgânica (nomeadamente epiléptica), isso não altera o facto de estarmos perante sintomas psicóticos. De qualquer forma, dada a semelhança das experiências descritas com sintomatologia psiquiátrica e a ausência de menção a eventos semelhantes a convulsões, é mais provável estarmos perante doenças psiquiátricas primárias.

Todas estas personagens bíblicas poderão fazer parte de perturbações psiquiátricas partilhadas, em que os seus sintomas são induzidos nas pessoas que os acompanham. Outras possibilidades de diagnóstico são menos apoiadas pela informação constante nas Escrituras.

Limitações da análise

A primeira limitação desta análise é que os registos em que ela é baseada não são registos clínicos e poderão até nem ser literais. Além disso, é difícil fazer um diagnóstico, sem ver nem examinar o doente. No entanto, tal não é uma impossibilidade absoluta, dado que existem registos passíveis de ser lidos e interpretados, ainda que com precaução. Ademais, a recolha de informações a respeito do doente não é um processo fixo e diferentes estratégias podem ser utilizadas, em diferentes contextos, para extrair conclusões quanto ao estado dos doentes. Actualmente, o conhecimento proveniente das neurociências pode facilitar a análise de registos passados a uma nova luz.

Quanto à credibilidade dos diagnósticos propostos, ela é suportada por vários pontos. Em primeiro lugar, a esquizofrenia é uma doença cuja etiologia não se terá modificado, tanto quanto sabemos, desde os tempos bíblicos, pelo que os factores desencadeantes também existiriam nessa altura. Em segundo lugar, existem referências, nas Escrituras, à desconexão entre as experiências das personagens referidas e a realidade, desconexão muitas vezes verbalizada por terceiros. Esta desconexão é característica dos estados psicóticos. Em terceiro lugar, estes diagnósticos devem ser entendidos à luz do conhecimento actual, que é necessariamente imperfeito e incompleto, pelo que é possível que as experiências religiosas do tipo descrito possam ser entendidas como algo normal, noutras culturas, ou noutros períodos históricos.

Os primeiros seguidores das quatro personagens bíblicas entenderam as suas experiências como sendo sinais divinos. No entanto, tais visões não poderiam ser demasiado distorcidas, em relação à realidade desse tempo, sob pena de não conseguirem encontrar seguidores: quem se desvia demasiado da realidade não consegue estabelecer uma ligação com a população, não é compreendido e acaba socialmente estigmatizado. Contudo, existe um grupo de indivíduos com sintomas psicóticos, que é capaz de estabelecer o seu próprio grupo social. Tal facto aponta para que a psicose seja um contínuo de sintomas.

É razoável assumir que Abraão, Moisés, Jesus e S. Paulo tenham sido líderes carismáticos, capazes de estabelecer as dinâmicas de grupo apropriadas, entre os seus seguidores, para os manterem envolvidos. Não é também novidade que os portadores de doença mental possam, em determinadas circunstâncias, ascender a posições de liderança, particularmente os doentes da esfera das perturbações afectivas.

Outra explicação possível para o aparecimento de pessoas dispostas a seguir os ensinamentos das personagens bíblicas em apreço poderá ser a já anteriormente aventada perturbação psiquiátrica partilhada.

Finalmente, é de referir que as Escrituras contêm descrições de sintomas psiquiátricos bastante precisas. Pelo menos nesta parte, as fontes podem ser interpretadas literalmente.
Os autores terminam a sua análise fazendo notar que a apresentação duma explicação neuropsiquiátrica para as narrações observadas não exclui a existência duma força sobrenatural, que tenha optado por agir por essa via. Qualquer interpretação do texto que o entenda como desrespeituoso para com Abraão, Moisés, Jesus ou S. Paulo significa apenas preconceito da parte do leitor para com a doença mental.

Direcções futuras

A investigação nesta área pode ser facilitada pelo reconhecimento de que a sintomatologia psicótica é um contínuo e pela criação duma nova categoria, dentro do grupo da esquizofrenia. Esta subcategoria denominar-se-ia esquizofrenia suprafrénica e caracterizar-se-ia por sintomas do tipo dos descritos, em indivíduos de elevada inteligência, capazes de mobilizar um grupo de seguidores e de levar a cabo actividades fora da norma social, passíveis de trazer consequências negativas para o próprio. Os indivíduos portadores desta doença são capazes de exercer uma enorme influência na sociedade.

Conclusão

Em conclusão, os autores deste artigo sugerem que algumas das figuras religiosas mais marcantes poderão ter apresentado sintomas psicóticos e que a nossa civilização pode ser o resultado da influência gigantesca de pessoas psicóticas.


Nota:

a: O artigo original pode ser lido no The Journal of Neuropsychiatry [1].

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