Categorias
Consultório da Ria

Pobres e sofisticados

Por Hugo Pinto de Abreu

Não me recordo de quando e onde conheci o conceito de «pobres e sofisticados». Talvez a expressão nem seja esta, mas é certo que fiz mil e uma pesquisas no Google, sem encontrar o que pretendia. Não queria, contudo, deixar de reflectir um pouco sobre este tema tão actual e importante. Prometo, além do mais, voltar ao tema se e quando conseguir encontrar as referências que me fizeram pensar neste fenómeno.

Pobres e sofisticados: a expressão refere-se a uma geração, normalmente identificada com a geração Y (uma expressão que designa as pessoas nascidas mais ou menos entre 1980 e o início dos anos 2000), que teve ou tem acesso a elevados níveis de escolaridade, com taxas muito significativas de frequência do ensino superior, e tem, ademais, acesso a uma grande quantidade de informação por meio, geralmente, da Internet. Em Portugal, são conhecidos pela expressão «geração mais qualificada de sempre».

Falava de pobres e sofisticados. De facto, sempre houve pessoas pobres e sofisticadas — não entremos, porque seria uma discussão longa, no que significa ser realmente sofisticado — e há, certamente, nesta geração, muitos exemplos de pessoas que nunca poderíamos apelidar de sofisticadas (e, já agora, de pobres: todos os estratos sociais estão representados na geração Y como, em princípio, em qualquer outra). Todavia, que haja camadas altamente significativas duma geração que enfrentem graves dificuldades económicas — e, o que talvez seja pior, falta de perspectivas económicas — e, ao mesmo tempo, estejam a par das melhores e mais recentes tendências (independentemente do género, desde o pop ao erudito, passando por inúmeras subculturas) a nível mundial, que procuram, aliás, incorporar, é, tanto quanto consigo analisar, inédito.

Eu vejo este fenómeno, apesar da sombria realidade que contém, como algo positivo e revelador de progresso: isto é, graças (também) às novas tecnologias, a condição e perspectivas económicas não são determinantes rígidos dos horizontes culturais que se pode atingir. Por exemplo, é possível ouvir toda a discografia de praticamente qualquer artista, de qualquer género musical e de qualquer tempo, usando programas gratuitos e legais, na Internet, como, por exemplo, o Spotify [1]. Outrora, era preciso estar atento às tendências, através da imprensa especializada, e, talvez mais importante, era preciso despender dinheiro para comprar discos ou cassetes.

Ou, noutro exemplo, os blogues de moda permitem às portuguesas e aos portugueses estar a par dos mais ínfimos detalhes e tendências da moda a nível mundial e, normalmente, têm o cuidado de, imaginativamente, conseguir um visual de vanguarda, gastando muito pouco.

Todavia, ser «pobre e sofisticado» pode ser também uma fonte de problemas, de incompreensões e de conflitos, particularmente num País onde, até há bem pouco tempo, por vezes até há uma geração atrás, um pobre não devia ser sofisticado e um sofisticado não devia ser pobre. É uma geração em choque com as circunstâncias e, como aliás tende a acontecer sempre, em choque com outras gerações.

É, enfim, um tema muito interessante, ao qual iremos certamente voltar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *