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Estado de Sítio

Reencontros

Por Ana Raimundo Santos

A história da nossa vida é feita de histórias e estórias cheias de nós, de sonhos e realidades que se misturam e diluem uns nos outros e nos tornam pessoas mais ricas e interessantes. E é nos meandros do que somos que brotam palavras que dizem tudo e nada ao mesmo tempo.

Meu querido,

Encontro-me e encontro-te em cada verso deste álbum. Fecho os olhos e coloco-o a tocar. Não me atrevi a ouvi-lo durante muito tempo, porque, de cada vez que ele tocava, a tua imagem entrava em mim para não mais sair. O Palma… Ainda e sempre o Palma, com o seu, o nosso, «Norte», com o seu, com o nosso, «Passeio dos Prodígios». O Palma… A banda sonora desta história, que teve o único destino que poderia ter tido. Sempre vi em ti aquilo que eu mesma seria um dia. Talvez por isso não tenhamos conseguido minorar as diferenças entre nós. Porque, apesar de poucas, foram elas que tiveram o condão de nos afastar.

Encontrei-te por acaso, num daqueles acasos da vida que nego constantemente. Nada acontece por acaso. Sempre acreditei nisso. E foi dessa forma que encarei a tua passagem pela minha vida, da primeira vez.

E foi também por acreditar que há coisas que não têm mesmo de ser que consegui levantar a cabeça da segunda vez que te foste embora. Esperei por ti e teria esperado contigo, se não tivesses partido. Não me deixaste mostrar-te que tinha aprendido a respeitar o teu tempo e o teu espaço. Preferiste ir embora, sem me dar oportunidade de lutar por aquilo que queria — por ti. Não sei se achaste mais seguro assim, ou se apenas havias perdido o encanto. Nunca mo disseste, nem nunca mo deixaste perceber.

Rendi-me perante a tua ausência e resignei-me perante o teu desaparecimento. Chorei e fechei-me. Nunca ninguém percebeu. Nem da primeira vez, nem da segunda. Mas costuma dizer-se que à terceira é de vez, e acreditei que tinha sido mesmo. Porque, da terceira vez que te foste embora, eu não fui mais capaz de esconder e falei de ti como nunca tinha falado a ninguém. Talvez não o tenha feito antes por receio de perceber o que realmente havias significado para mim. Ou então porque, inconscientemente, sabia que não falando de ti conseguiria deixar a tua memória guardada dentro duma caixinha de madeira, no fundo dalguma prateleira escondida do meu canto da lua. Naquele lugar só meu onde guardo aquilo que, sendo precioso, deve ficar confinado ao esquecimento. Naquele lugar onde deverias ter ficado para sempre e não ficaste. E agora eu não sei o que fazer com o turbilhão de emoções que despertou em mim este teu sinal de vida. Foste embora de novo no mesmo momento que voltaste e eu fiquei perdida.

A verdade é que, passados todos aqueles anos, continuavas a apanhar-me por dentro, das maneiras mais inimagináveis. Tentava esquecer-te e esquecer o que foi, o que fomos e o que poderíamos ter sido. Mas não me deixavas. Relembravas-me sempre a tua existência e deixavas-me presa a algo que não sabia se algum dia seria real. E tornei-me, assim, prisioneira dos sonhos que alimentei e que ias alimentando, na tua distância inultrapassável. A barreira que impuseste entre nós não era verdadeiramente verdadeira. Era um abismo que só tu poderias transpor.

Quando nos conhecemos, abri-te o meu mundo e mostrei-te o melhor de mim. Os meus medos e as minhas dúvidas também lá estavam. Olhaste-as e viste-as. Aceitaste-as, ou pelo menos eu pensava que sim. Mas depois foste embora, regressando sempre duma maneira ou doutra, sempre para que eu nunca te esquecesse. Acredito que somos linhas paralelas neste universo geometricamente perfeito. Linhas que jamais se cruzarão, porque as leis da geometria são invioláveis. E foi nesta certeza que encontrei, mais uma vez, força para seguir com a minha vida, sem esperar que tu resolvas voltar a ela.

Queria secretamente que voltasses. E voltaste, mais uma vez, de forma inesperada e repentina. Invadiste, mais uma vez, a minha vida e eu deixei. Porquê? Não sei se por curiosidade ou ousadia, mas deixei. E a vida surpreendeu-nos de uma forma inusitada. Percebi que desde o início tinha razão em ver em ti aquilo que eu própria sabia que um dia iria ser. Os papéis inverteram-se de forma quase irónica e ainda estou a tentar perceber o que tudo isto significa.

Apesar do meu secreto desejo de que os nossos caminhos voltassem a cruzar-se, a verdade é que, entre tantos encontros e desencontros, não acreditava que tal pudesse voltar a acontecer. Talvez tenha sido por isso que, ao ouvir-te dizer que tinhas a certeza absoluta de que os nossos caminhos voltariam a cruzar-se, senti em mim uma incredulidade assombrosa. Acho que parte de mim ainda não acredita que estejas de volta à minha vida, e essa mesma parte de mim não sabe onde encaixar-te. E por isso, mais uma vez, vou deixar que a vida nos leve onde quer levar.

 Um beijo,

 M.

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