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O Fundamentalista Científico

Por que os rapazes têm «piolhos» (mas os irmãos não)

Por Satoshi Kanazawa [a]

Quando os meninos e as meninas atingem uma certa idade, começam a acusar-se mutuamente de ter «piolhos». Eles consideram o outro nojento e sujo, porque tem «piolhos», e evitam qualquer contacto com eles, por medo de também apanhar «piolhos». Isto até, de repente, se «descobrirem» um ao outro, quando atingem a puberdade, e então ficarem loucos um pelo outro e já não temerem «micróbios». Por que é que esta trajectória de desenvolvimento acontece? Por que é que os meninos e as meninas acreditam em «piolhos»?

A chave para o mistério dos «piolhos» é o antropólogo finlandês Edvard Alexander Westermarck (1862-1939). Westermarck ensinou na LSE, onde eu agora ensino, desde 1904, até à reforma, em 1930. Numa nota muito pessoal, ele também é o meu tetravô intelectual, querendo isso dizer que ele era o supervisor do supervisor do supervisor do supervisor do meu supervisor [2].

Westermarck é mais conhecido por descobrir um fenómeno, que recebeu o seu nome: o efeito Westermarck. Este fenómeno refere-se ao facto de que, quando os meninos e as meninas passam muito tempo juntos enquanto crescem, mais tarde, como adolescentes, vêm a achar-se sexualmente repulsivos. É um mecanismo desenhado para evitar o incesto. Dado que os indivíduos com quem as crianças pequenas entram em contacto regular e frequente à medida que crescem são quase sempre seus parentes genéticos (os pais, os irmãos e outros familiares), a criança não vai ter interesse genético em sentir-se sexualmente atraída por eles. Portanto, a natureza seleccionou os indivíduos que possuíam um mecanismo psicológico que ajude a evitar os seus parentes genéticos próximos como companheiros sexuais adequados.

Porém, tal como acontece com todos os outros mecanismos psicológicos que são fruto da evolução, o efeito Westermarck às vezes tem consequências imprevistas, quando se depara com um ambiente novo, do ponto de vista evolutivo, que a evolução não poderia, portanto, ter antecipado [b]. Um exemplo em que o efeito Westermarck tem consequêncis negativas é o kibbutz israelita. Nos kibbutzim, todas as crianças pequenas, de famílias diferentes, são criadas juntas, em comunidade. Como resultado do (mau) funcionamento do efeito Westermarck, os israelitas que cresceram em kibbutzim não costumam achar-se uns aos outros sexualmente atraentes como adultos e, portanto, raramente se casam entre si, ainda que não estejam geneticamente relacionados.

Outro exemplo é um costume peculiar de adopção e noivado infantil, entre famílias tradicionais chinesas. De acordo com esta prática, uma família chinesa abastada adopta uma menina duma família pobre, que não pode sustentá-la, e cria-a com seu próprio filho, que é então prometido à menina. Em alternativa, uma família sem herdeiro adopta um rapaz, para que ele possa casar com a filha da família mais tarde e dar continuidade ao nome familiar. Quando mais tarde casam, como planeado, no entanto, o par geralmente permanece sem filhos, porque se acham um ao outro sexualmente repulsivos, em consequência de terem crescido juntos. Apesar destas excepções, o efeito Westermarck funciona bem na maioria das vezes, porque a maioria dos outros seres humanos com os quais a maioria das crianças contacta regularmente à medida que cresce, na maioria das sociedades, na maioria das circunstâncias, são de facto parentes genéticos, que devem ser evitados como companheiros.

Do ponto de vista do efeito Westermarck, os «piolhos» (e os seus equivalentes em todo o mundo) são um dispositivo culturalmente específico, que reflecte o funcionamento dum mecanismo psicológico subjacente, evoluído universalmente. Os meninos e as meninas de todas as sociedades estão evolutivamente concebidos para empregar tal dispositivo (inconscientemente), para se certificarem de que não vão passar muito tempo uns com os outros. Os grupos de brincadeiras infantis, em todas as sociedades humanas, são segregados por sexo; os meninos brincam com os meninos, e as meninas brincam com as meninas. Isto irá garantir que meninos e meninas, mais tarde, se acharão uns aos outros sexualmente atractivos, quando for a hora certa, o que, no contexto do ambiente ancestral, era exactamente na puberdade.

Esta linha de raciocínio leva-me a sugerir uma nova previsão interessante, apesar de ser difícil testá-la empiricamente. Eu não conheço quaisquer dados científicos sistemáticos sobre a suposta doença das crianças com «piolhos» e duvido da existência de tais dados. Os cientistas tendem a não levar os «piolhos» a sério. No entanto, se os «piolhos» são um mecanismo para as crianças evitarem passar muito tempo umas com as outras, para que possam depois encontrar companheiros sexuais, então esse dispositivo não deveria ser empregue contra os seus próprios irmãos e irmãs, que não serão seleccionados como parceiros sexuais, de qualquer forma, e com quem as crianças deveriam passar muito tempo. Por outras palavras, as meninas devem alegar que os meninos têm «piolhos», excepto os seus irmãos, e os meninos devem alegar que as meninas têm «piolhos», excepto as suas irmãs. Os irmãos e as irmãs podem discutir, lutar, e mesmo odiar-se, mas não devem alegar «piolhos» uns contra os outros. Um menino pode dizer aos seus amigos que a irmã tem «piolhos», na tentativa de mantê-los longe dela, mas não deve usar a mesma desculpa para ele mesmo se afastar dela. Gostaria muito de ouvir os pais que têm filhos e filhas contando as suas experiências a favor ou contra a minha previsão.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

b: A evolução é sempre voltada para o passado e só pode responder a situações que existiam de forma fiável e consistente no passado. A evolução nunca pode prever o futuro, especialmente num ambiente em rápida mutação, como o nosso tem sido ao longo últimos dez mil anos.

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