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Por Gustavo Martins-Coelho

Um beijo é um beijo, não é uma intenção. Eu beijo com a boca, não com a bochecha. E beijo a mão duma donzela, não o ar que sobre ela paira. Faltar-me-á o polimento da etiqueta? Talvez, decerto. Mas não me falta o cavalheirismo da consequência.

De resto, não aprecio particularmente as convenções sociais. É por isso que sempre aperto o último botão do paletó. É o meu grito de revolta, o meu braço agitado na multidão, dizendo que não serei domado; jamais!

Um homem tem de andar sempre barbeado, perfumado e preservado. Deitar-se na cama e sentir a roupa lavada — o paraíso! Agir de acordo com as suas afirmações. Pedir desculpa. Um cavalheiro caminha, mas nunca corre. Há pessoas que ficam muito contrariadas com isso, mas é assim a vida.

A formalidade parece que caiu em desuso em tudo. É bom nalgumas coisas (já era hora de deixarmos de ser um bando de engravatadinhos enfadonhos), mas, noutras, não era mau manter um pouco a compostura. Um fraque nunca é uma má ideia. O cheiro a sovaco devia ser considerado arma química e interdito em conformidade.

Um cavalheiro não deve perder uma ocasião para dizer a uma mulher que ela é bonita. Se a não achar bonita, não é preciso mentir: basta olhar mais de perto e notará a beleza que escapou à primeira vista. Mas não se deve começar uma coisa que não se está disposto a levar até ao fim.

Os amores platónicos só se partilham, à noite, no quarto, com o melhor amigo, quando ficamos a dormir lá em casa. Ele confessa-nos, então, quem é a sua musa inspiradora — e assim guardamos o segredo um do outro.

Ela não veio e eu fiquei triste. O amor à primeira vista é a única forma de amor que existe.

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