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A selecção

Por Carlos Lima

Representar a selecção nacional é, em qualquer país, um marco importante na vida dum atleta. É algo que o faz sentir extraordinário, principalmente quando o faz pela primeira vez.

Estar entre os melhores dum país é uma honra, uma oportunidade e, muitas vezes, um estímulo para as suas carreiras; basta lembrar que, no futebol, para um estrangeiro (fora da União Europeia) poder jogar em Inglaterra, deverá, entre outras condições, ter «jogado pelo seu país» [1].

O lugar de treinador da selecção é também o sonho de muitos treinadores, ainda que haja selecções com treinadores estrangeiros.

Esta semana, em que Portugal jogou com a Arménia e, felizmente, ganhou, estranhei que, na conferência de imprensa que antecedeu o jogo, o treinador da selecção (Fernando Santos) tenha sido confrontado com a opinião doutro treinador (Pedro Martins — Rio Ave) [2], pelo facto de não ter convocado o jogador Tiago Pinto, uma vez que tinha convocado para a lateral esquerda dois jogadores novos. Ainda que pense que não é de bom tom fazer este tipo de perguntas a um seleccionador antes dum jogo importante para as nossas cores, isto mostra que existem muitos interesses à volta da selecção.

Gostei da forma como o seleccionador deu a volta ao assunto, reconhecendo o valor do jogador em causa, mas centrando a questão no trabalho desenvolvido pela equipa que lidera — «observamos muitos jogadores» — e depois respondendo e assumindo as suas responsabilidades:  «respeito todos os meus colegas, mas sou eu que estou deste lado”, pelo que «sou eu que tenho de decidir quem são os que tenho de escolher» [3].

Para mim, o grande papel dum treinador da selecção centra-se exactamente nas escolhas que tem de fazer, para a convocatória e, depois, para o jogo. Um seleccionador não tem a mesma capacidade de mudar um jogador que o treinador dum clube, pois está condicionado pelo tempo que o jogador está disponível para a selecção. Esta condição não permite mudar o registo dum jogador. Surge aqui a importância da articulação entre os técnicos da selecção e os técnicos dos clubes (treinadores, preparadores físicos, departamentos clínicos, entre outros), pois o trabalho realizado nos clubes pode condicionar a condição dum jogador. Dou como exemplo: os jogadores passam por fases de desenvolvimento muscular, para prevenir lesões e para ganharem potência muscular; nas fases mais acentuadas deste processo perdem alguma velocidade. Se o trabalho não for coordenado, podem colocar o jogador em contraciclo e aumentar o risco de lesões; e a sua capacidade de resposta pode não ser a mais adequada.

Para o seleccionador português, este trabalho está muito condicionado, pois os jogadores vêm dum leque alargado de clubes, a maior parte dos quais no estrangeiro. Com os clubes a privilegiar as suas competições, todo o planeamento é feito em função delas; logo, o trabalho do treinador da selecção é muito mais de prospecção deste conjunto de factores do que propriamente treinar. A observação dos jogadores em contexto de competição é muito importante, mas não é fundamental, pois dois jogadores que estão em grande forma nos seus clubes podem ser incompatíveis na selecção, se ocuparem a mesma posição no campo. Compatibilizá-los em pouco tempo pode ser de todo impossível. Claro que, nos jogadores actuais, existe uma grande polivalência de posições, mas afinar a orquestra para o jogo é mais do que isso, pelo que a convocatória dum seleccionador pressionado pela necessidade de resultados é a mais segura possível, ou seja, uma aposta nos jogadores que melhor conhece, sem mexer em muitas posições ao mesmo tempo. Depois, haverá os jogos de preparação, os ditos «amigáveis», para experiências, para afinações e para descobertas.

Outro aspecto é o conhecimento que o seleccionador tem das equipas técnicas dos clubes, do trabalho que desenvolvem, da forma como favorecem ou condicionam os jogadores e as suas próprias capacidades de «mexer» nesse trabalho.

Dito isto, sei que o trabalho dos jornalistas é investigar e fazer perguntas, mesmo que sejam incómodas, mas também têm a responsabilidade de saber fazê-lo, de ter ética e de respeitar o trabalho dos outros. Estou certo de que o seleccionador se disponibilizará para responder a todas as questões, mas não me parece adequado fazê-lo antes dum jogo da selecção, dado que o esclarecimento da situação só gera condicionantes e jamais algum treinador dirá:

— Escolhi estes, mas não eram estes que eu queria.

A vida dum seleccionador é difícil, as críticas são aceitáveis, mas o reconhecimento também é bom. Neste caso, tenham paciência, que o senhor ainda nem aqueceu o lugar.

3 comentários a “A selecção”

Todos os “treinadores de bancada” deviam ler este texto. Talvez possam aprender que não é útil a emissão de juízos de valor sem uma análise prévia.

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