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348

Por Gustavo Martins-Coelho

Esforço-me por ser boa pessoa. Nunca me dediquei a desflorar virgens, para matar o tempo. Sei que isso faz de mim totó, mas a minha consciência é muito acusadora. De modo que, por vezes, acabo por ser enganado, ou simplesmente a fazer figura de urso.

Estava no restaurante e tinha o meu casaco pousado na cadeira ao lado da minha. A certa altura, chegou uma senhora, que me perguntou se a cadeira onde eu pousara o casaco estava ocupada. Eu disse que não e retirei o casaco, pensando que a senhora iria arrastar a cadeira para a mesa ao lado. Mas a senhora agradeceu, pousou o casaco dela na mesma cadeira onde o meu estivera e sentou-se numa outra cadeira que lá estava vaga. E eu fiquei com o meu casaco no colo.

Podemos chamar restaurante ao McDonald’s? A resposta parece ser afirmativa. Quando se oferece comida do McDonald’s a críticos de culinária, cortada em pedacinhos do tamanho dum prato gourmet, os ditos críticos apreciam com fervor a frescura e inovação do produto [1]. O McDonald’s tem andado a aplicar a estratégia errada: em vez de fazer crescer os hambúrgueres, devia era fazê-los encolher ao tamanho duma azeitona, servi-los num prato quadrado e cobrar cinquenta euros a peça. Ao fim dum mês, receberia a sua primeira estrela Michelin. A segunda estrela chegaria, quando mudasse o nome do Big Mac para Small Mac. Para ter a terceira estrela, as batatas fritas teriam de passar a ser servidas em palitos individuais e chamar-se «friture de pomme-de-terre com redução de polpa de tomate e especiarias». Ou, então, basta fechar o restaurante: diz que a Michelin deu, uma vez, uma estrela a um restaurante que ainda não tinha aberto [2].

Em geral, é um desperdício prestar atenção aos críticos. Hoje em dia, meio mundo é especialista em criticar isto, ou aquilo.

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