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Por Gustavo Martins-Coelho

Qualquer um fala do que lhe apetece, no Youtube. Se todos falam, quem ouve [1]? Tornámo-nos máquinas de afagar egos mútuos. Treinadores de bancada, então, é aos pontapés!

Recuso-me a ver vídeos de crítica disto e daquilo. Prefiro ler. Os locutores, habitualmente, falam mais devagar do que eu consigo ler. Se me derem o texto para a mão, consigo obter a mesma quantidade de informação em menos tempo, aumentando a eficiência.

Mas o melhor é não ligar aos críticos, de todo. Além dos que apreciam McDonald’s como iguarias [2], no sector da moda, há os que adooram roupa de criadores que não existem [3]. Restam-nos os musicólogos [4]. A música sempre nos salva. A música sempre diz o que não conseguimos. Quando me faltam as palavras, a música resolve a angústia de ter uma ideia e não conseguir imprimi-la! Embora, agora, até haja impressoras tridimensionais, continuo a não conseguir imprimir todas as ideias. E pergunto-me se as impressoras tridimensionais não deveriam chamar-se escultoras. Talvez instaladoras, agora que ninguém faz esculturas e todo e qualquer artista gosta da sua instalaçãozita…

Na falta duma escultora, preciso de música agora: tanta coisa que gostaria de te dizer! Mas há uma linha cortada entre os nossos telefones; não consigo discar-te. As tentativas de reparar a linha têm sido infrutíferas, mas continuo a tentar chamar-te — cada vez menos, é certo.

Mas será possível eu receber um telefonema sem que passes a meia hora seguinte a dissertar sobre o mesmo?

Os Franceses têm uma palavra para isto: décalage. Procura no dicionário. Há um desfasamento entre o que queres dar-me e o que quero receber. Não esperes que te agradeça, quando me dás o que não quero. Não esperes que te perdoe, por não me dares o que te peço.

Como podes não perceber o que te digo, tão claramente que ofusca?!

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