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Olho Clínico

O Deus de hoje

Por Sara Teotónio Dinis

No nosso dia-a-dia, podemos ver-nos confrontados com a impossibilidade de cura dos doentes e com a inevitabilidade da sua morte.

Podemos ter de dar más notícias de dois tipos — as que ainda têm uma janela aberta de esperança e as que já não… as que têm potencial de recuperação e as que piorarão e temos de ensinar a aceitar.

Fazemo-lo com a noção dos nossos conhecimentos gerais sobre as várias entidades clínicas e com os dados específicos que temos acerca dos doentes que delas padecem. Mas, chegado o momento em que nos deparamos com a ausência de mais planos terapêuticos viáveis, respiramos fundo, decidimos em conjunto as medidas de conforto para as especificidades do doente em questão e aguardamos — tentando em vão protegermo-nos do peso do nosso «fracasso».

Lá no serviço onde agora estou — e noutros —, a protecção emocional face à morte iminente dum doente resume-se a duas afirmações, várias vezes por lá ouvidas, que podem ferir algumas susceptibilidades:

— Está a conversar com São Pedro… Ainda estão em negociações.

— Aguarda alta celestial.

Não está nas nossas mãos a condição do último suspiro — nem como, nem quando. Está nas mãos dalguém maior. Se o porteiro se chama ou não São Pedro, isso eu não sei… só sei que eu é que não decido.

Como será a relação dos médicos com a religião? Calculo que, em geral, já deva ter conhecido melhores dias… Digo-o pela nossa dificuldade em lidar com a nossa própria impotência e pela velha piada, com algum fundo verdadeiro, de que, se as coisas correm mal, a culpa é do médico; mas, se as coisas correm bem, foi «graças a Deus».

Eu já fui mais religiosa… E, sem querer entrar na natureza da religião em que acredito, debruço-me antes sobre a evolução da minha relação com o mistério e o intangível.

Desde que entrei no mundo da Medicina e nos seus corredores de dor e amargura, não consegui mais acreditar piamente no Deus de amor e de misericórdia, no descanso eterno ou no fogo infernal. Primeiro, o amor está em nós; não esperemos que ele brote dos outros, muito menos dalguém que não sabemos mesmo se existe. A misericórdia divina é outra que tal — quem tem de sofrer sofre e geralmente não é pouco; não há prece que lhe valha, excepto uma boa tabela terapêutica que contemple a escalada no tratamento da dor (e não falemos da dor de alma, que a essa então não há quem lhe acuda, mesmo).

Deixei de querer rezar. Acredito hoje que o tempo que passei a rezar podia ter sido melhor aproveitado a fazer efectivamente algo de construtivo e útil neste mundo, principalmente pelos mais desprotegidos nele. Mas não deixei de ter fé!

Quem diz não ter fé não é capaz de se deitar e dormir — quem se deita e se permite adormecer tem pelo menos a fé em duas coisas: que o dia vai nascer de novo e que vai voltar a acordar. Após alguma revolta neste campo, nomeadamente no primeiro e no segundo anos de curso, e na sequência da constatação deste mundo «doente» que não é nada fácil, comecei a pensar, após melhor análise, que Deus, afinal, era bom e nos dava uma grande dádiva todos os dias — o hoje.

O hoje nasce todos os dias — ele nasce independentemente da nossa vontade, não temos poder para o impedir de aparecer. Com ele, nasce implicitamente uma nova oportunidade. A única coisa que é nossa, neste processo de todos os dias, é a escolha do que iremos fazer com as novas 24 horas que nos são dadas, é o poder de decisão perante a nova folha em branco. É como se alguém nos dissesse:

— Toma lá mais um dia. É teu. Que vais fazer com ele? Vais fazer por ser feliz, ou vais desperdiçar mais esta oportunidade? Vais ser útil à sociedade? Vais ajudar os outros? Ou não vais fazer nada por ti abaixo?

Nesta relação médico–vida, há o choque entre um grande amor, inquestionável e insaciável, e uma grande verdade, definitiva e esmagadora. Vida e morte. Onde está Deus nisto tudo?

Está onde Ele é querido. Acompanha aqueles que O sentem. Lá onde estou, agora Ele é chamado muitas vezes, todos os dias, e as doentes vêem-no. Eu não preciso de vê-l’O para saber que Ele poderá lá estar. Vou andando naquele corredor até aonde for preciso, para fazer o que me compete, e talvez não seja preciso dizer mais nada.

A Medicina é uma grande oportunidade de aprender a bem viver. Todos os dias de trabalho são também dias de paixão: por isso nos movemos tanto com as pessoas e as atitudes que se cruzam connosco — elas ensinam-nos uma lição de vida por dia. Alimentam-nos com histórias de muitos que já foram e dalguns que estão para vir. Somos espectadores de bata branca; testemunhamos alegrias ruidosas, mas sentimos mágoas em silêncio.

Sem Deus ou com Ele, os médicos seguem na sua busca eterna pela verdade, defendendo a vida, atenuando o sofrimento. Tentando tudo o que podem para ajudar quem pede ajuda. Para isso, eles têm as suas mãos de trabalho e o hoje que alguém lhes deu.

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