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Estudo demonstra que a discriminação de género é real na ciência — e isso é importante

Por Gustavo Martins-Coelho [a]

É difícil provar a discriminação de género. Quando se olha para os diferentes resultados obtidos por homens e mulheres em termos profissionais, há uma miríade de explicações, para além do género, para as diferenças encontradas. A única forma de provar uma relação de causalidade é através dum ensaio aleatorizado [2, 3]. Porém, no caso da discriminação de género, esse tipo de ensaio era impossível, até um estudo recente [4] ter conseguido fazer algo muito próximo disso: enviou o mesmo currículo numa candidatura a um emprego como assistente de laboratório e estudante de doutoramento, mas, num caso, associado a um candidato com um nome masculino e noutro associado a um candidato com um nome feminino. As candidatas foram classificadas com notas piores do que os candidatos, apesar de terem o mesmo currículo, em aspectos tais como competência e adequação àquela vaga, e os avaliadores manifestaram-se menos receptivos a tê-las com orientandas. Os salários propostos também foram inferiores, no caso das mulheres.

Isto é importante. Quando falamos de ciência, a tendência é negar a discriminação de género e procurar outras explicações para o diferente desempenho entre homens e mulheres. No entanto, este estudo demonstra que essa negação é um erro. A discriminação de género existe na ciência e, embora não explique tudo, não pode ser ignorada. Este tipo de discriminação nega o princípio da igualdade de oportunidades.

Há três razões adicionais, pelas quais este estudo é fundamental:

1. Tanto os homens como as mulheres apresentaram a mesma tendência para a discriminação de género demonstrada. As mulheres discriminam outras mulheres da mesma forma que os homens — provavelmente fruto de concepções arreigadas na sociedade;

2. Os avaliadores que julgaram as mulheres com maior severidade não usaram argumentos sexistas; pelo contrário, procuraram racionalizar a sua opção discriminatória. A discriminação de género surge muitas vezes mascarada de argumentos perfeitamente racionais. Por sua vez, esta racionalização facilita a aceitação, por parte das mulheres, de que são menos competentes, mesmo isso não sendo verdade;

3. Ao identificar o problema, este estudo também é um passo a caminho da solução. Tomar consciência da pulsão discriminatória inconsciente deve levar a um cuidado extra, de forma a garantir que se consegue controlar tal mecanismo inconsciente.

O leitor poderá ter uma de quatro reacções a este artigo:

1. Não estou surpreendido; estou feliz por ter a confirmação científica daquilo que já sabia há muito;

2. Isto é surpreendente e perturbador;

3. Os gráficos do estudo [5, 6] induzem em erro, porque a escala está mal construída; logo todo o estudo está errado;

4. Em igualdade de circunstâncias, as mulheres devem ser discriminadas, pois podem ficar grávidas.

A segunda reacção é a mais relevante. Estas pessoas, que discriminam inconscientemente, são aquelas com potencial para mudar, ao se darem conta desta realidade. A mudança só é possível depois de se conhecer a realidade. Os factos estão aí. Agora, é preciso aprendê-los, usá-los e divulgá-los.


Nota:

a: O artigo original pode ser lido na Scientific American [1].

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