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O Fundamentalista Científico

Todos os estereótipos são verdadeiros, excepto… III — «Quem vê caras não vê corações»

Por Satoshi Kanazawa [a]

Dizem que a beleza é apenas superficial, o que significa que pessoas bonitas não são diferentes das pessoas feias, excepto no aspecto. Este é o segundo estereótipo, ou aforismo, que a psicologia evolutiva anulou. Acontece que as pessoas bonitas são genuinamente diferentes das pessoas feias, porque são mais saudáveis, geneticamente e em termos de desenvolvimento.

No meu último artigo [2], eu expliquei que os padrões de beleza são culturalmente universais e inatos. Há três características principais que caracterizam rostos bonitos: a característica geométrica da simetria bilateral, a característica matemática da mediania, e a característica biológica dos caracteres sexuais secundários. Todos eles indicam a saúde genética e do desenvolvimento das pessoas bonitas.

A simetria bilateral

Os rostos atraentes são mais simétricos do que os rostos pouco atraentes. A simetria bilateral (o grau em que as características faciais à esquerda e à direita são idênticas) diminui com a exposição a parasitas, patogénios e toxinas durante o desenvolvimento e com alterações genéticas, tais como mutações e endogamia. Os indivíduos com genes e desenvolvimento mais saudáveis apresentam maior simetria nas suas características faciais e corporais e são, portanto, mais atraentes.

Por esta razão, em todas as sociedades, existe uma correlação positiva entre a prevalência de parasitas e de patogénios no meio ambiente e a importância dada à atracção física na escolha do parceiro; as pessoas dão mais importância à atracção física, quando há mais patogénios e parasitas no seu ambiente local. Isto porque, em sociedades onde há um grande número de patogénios e de parasitas no ambiente, é especialmente importante evitar os indivíduos que foram atingidos por eles, quando se selecciona o parceiro.

A mediania

A mediania facial é outra característica que aumenta a atracção física; faces com características mais próximas da média da população são mais atraentes do que as que apresentam características extremas. Nas palavras memoráveis de Judith H. Langlois, da Universidade do Texas, que originalmente descobriu que os padrões de beleza poderiam ser inata, «os rostos atraentes são apenas medianos». As razões da psicologia evolutiva pelas quais os rostos médios da população são mais atraentes do que os extremos não são tão claras como as razões pelas quais a simetria bilateral é atraente. Actualmente, especula-se que a mediania facial resulta da heterogeneidade e não da homogeneidade genética. Os indivíduos que têm duas cópias (ou alelos) diferentes dum gene são mais resistentes a um maior número de parasitas, menos susceptíveis de possuir duas cópias de genes deletérios, e ao mesmo tempo mais propensos a ter faces estatisticamente mais medianas, com menos características extremas. Se esta especulação estiver correcta, isso significa que, assim como a simetria bilateral, a mediania facial é um indicador de saúde genética e de resistência a parasitas.

Os caracteres sexuais secundários

Ao contrário do conceito geométrico de simetria bilateral e do conceito matemático de mediania, o conceito biológico de caracteres sexuais secundários difere entre os sexos. Para os homens, os caracteres considerados atraentes são indicadores de níveis elevados de testosterona (como mandíbulas grandes e sobrancelhas proeminentes). Para as mulheres, os caracteres considerados atraentes são indicadores de altos níveis de estrogénio (como olhos grandes, lábios cheios, testas grandes e queixos pequenos). É provavelmente por este motivo que as mulheres inclinam institivamente a cabeça para a frente e olham para cima (fazendo os olhos e testa parecer maiores e o queixo menor do que são) quando querem parecer atraentes [b]. Da mesma forma, os homens inclinam instintivamente a cabeça para trás (fazendo o maxilar parecer maior e as sobrancelhas mais proeminentes do que são), quando querem parecer atraentes. Em ambos os sexos, as faces que tipificam níveis mais elevados de hormonas sexuais típicas desse sexo são consideradas mais atraentes.

Longe de ser apenas superficial, a beleza parece ser um indicador de saúde genética e do desenvolvimento e, portanto, da qualidade do companheiro; a beleza é um «certificado de saúde». As pessoas mais atraentes são mais saudáveis, têm maior aptidão física, vivem mais e têm menos problemas de dor lombar (embora alguns cientistas contestem estas conclusões). A simetria bilateral mede a beleza com tanta precisão, que existe agora um programa de computador capaz de calcular a simetria facial duma pessoa, a partir duma fotografia digitalizada (medindo os tamanhos e as distâncias entre as várias partes faciais) e atribuir uma pontuação única para a beleza física, que se correlaciona fortemente com as notas atribuídas por juízes humanos. Um outro programa de computador consegue fazer regredir à média os rostos humanos, também digitalmente. Portanto, a beleza é um atributo objectivo e quantificável dos indivíduos, como a altura ou peso, sendo que ambos estavam mais ou menos «no olho de quem vê», antes da invenção da fita métrica e da balança.


Notas:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

b: Pense na forma como a princesa Diana foi tipicamente fotografada.

5 comentários a “Todos os estereótipos são verdadeiros, excepto… III — «Quem vê caras não vê corações»”

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