Categorias
Docendo Discimus

Lições da crise

Por Hugo Pinto de Abreu

O Outono–Inverno de 2013–2014 no Porto foi muito, muito difícil para aqueles que, tal como eu, não gostem particularmente de chuva e tenham alguma necessidade de ver o sol: chuva constante, semanas e semanas sem um dia de céu limpo. Porém, aprendi alguma coisa: nunca mais me queixar do calor. Apesar do Verão de 2014 não ter sido particularmente quente, nunca sequer pensei em esboçar um lamento por, nalgum momento, sentir calor a mais: bem me lembrava do tenebroso Inverno passado.

O mesmo acontece com o inverno económico-financeiro pelo qual passamos/passámos (o pior parece já ter passado): aprendi a nunca mais me queixar do número de pessoas nos centros comerciais, nos restaurantes, nos parques, nas ruas. Até mesmo em relação ao trânsito — embora o trânsito automóvel em excesso seja certamente nocivo para o ambiente e para a sociedade —, já penso duas vezes.

Isto não significa, bem entendido, que me tenha rendido à retórica de «deixar de ser lamechas», ou de acreditar nas propriedades redentoras da «santa austeridade», que nos faz deixar de «viver acima das nossas possibilidades». Bem pelo contrário, é por ver sinais de retoma da procura interna e, sobretudo, sinais de retoma duma vida normal dos Portugueses, dentro do possível permitido pelas circunstâncias ainda tão difíceis, e do desemprego ainda tão elevado.

Neste sentido, talvez a crise tenha a virtude de ser uma espécie de alarme, uma chamada à realidade, um apelo ao sentido solidário e social: é bom que haja outros a partilhar connosco a possibilidade de tomar uma refeição num restaurante; é extraordinário que os cinemas não estejam vazios e, depois, fechados; é bom, enfim, ver que muitos podem ter acesso a uma «zona de conforto», ainda que tenhamos que reduzir o nosso conforto individual em prol dos outros. Sim, porque a chave-mestra da ideologia «austeritária» foi — e é ainda — essa ideia cretina, segundo a qual devemos «sair da nossa zona de conforto». Como qualquer mentira, tem o seu grau de verdade, mas esconde um pensamento perigoso, talvez subconsciente: que «muitos» (os suficientes) vivam pior, para que alguns — aqueles que «vivem de acordo com as suas possibilidades», no qual o «eu» sempre se inclui — vivam imperturbados, em virtude dos seus «méritos», sem serem ofuscados ou prejudicados pela massa dos «preguiçosos», ou, simplesmente, dos «outros». Não sendo psicólogo, desconfio que a ideologia «austeritária» se baseia, efectivamente, na falta de empatia — talvez por isso o «austeritarismo» tenha um carácter tão psicopata.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *