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Olho Clínico

Às escuras

Por Sara Teotónio Dinis

É dia 9 de Dezembro de 2014 e o concurso do Internato Médico 2014 ainda está às escuras.

São 1777 as almas que desesperam — umas sem saber para onde vão, outras sem saber se terão para onde ir, já em Janeiro de 2015. Daqui a 22 dias, portanto.

Sobre isto, já se pronunciou a Ordem dos Médicos [1] – resumindo, não haverá vagas de especialidade para todos; o desequilíbrio entre candidatos e vagas é já grande e vai tornar-se ainda maior, dado o elevado numerus clausus e o «emagrecimento do SNS»; quem dá idoneidade às vagas são os Colégios de Especialidade, em conjunto com a Ordem dos Médicos, e a Ordem não cruzará o «limite da qualidade».

É incrível que, doze meses depois da Prova Nacional de Seriação de 2013, pareça não haver noção de nada — como é que, em doze meses, a ACSS [2] não dá resposta à situação? Ou não pára duas horas que seja para redigir um comunicado realista, preparando quem de direito para a eventualidade de não conseguir tornar-se especialista neste País?

Só a Ordem dos Médicos vai dando notícias dos desenvolvimentos de toda uma espécie de «negociações» que mantém com a ACSS, no sentido de tentar garantir o que já não se pode prometer. Hoje houve nova reunião destes dois órgãos e do Conselho Nacional do Internato Médico, da qual nos deu conta o nosso Bastonário, Dr. José Manuel Silva, na sua página de Facebook [3].

Há 1515 capacidades formativas (mais do que no ano passado) e o mapa de vagas será encerrado até ao próximo fim-de-semana, prevendo-se o início da escolha na próxima semana. O Bastonário sublinha, contudo, que «tendo em conta o número elevado de candidatos que pode realizar a escolha, existe a possibilidade de cerca de 20–40 colegas não terem já vagas disponíveis, quando da sua vez para escolher». Estes colegas terão autonomia para o exercício da Medicina, após publicação do novo Decreto-Lei do Internato Médico, que se perspectiva para os primeiros meses do próximo ano civil.

Entraram nas faculdades de Medicina em 2007, pensando que iam ser médicos «completos», como os seus colegas até à data. Passados sete anos, estes vêem-se defraudados. Sete anos é muito tempo para andar ao engano! E pode questionar-se porventura o que vão estes vinte a quarenta colegas fazer com a autonomia e sem especialidade?

Não foi por falta de estudo da situação. Não foi por falta de aviso. Não foi por falta de discussão. Nem tão pouco por falta de vontade da classe médica. O «inevitável» só assim se tornou por falta de vontade política — porque não «convém». Porque se acha que é mais proveitoso continuar a formar pessoas em vários cursos, sem que haja necessidade — ou melhor, sem estudar a natureza da necessidade existente — do que canalizar as pessoas para actividades que lhes garantam emprego e, em muitos casos, realização pessoal.

Na cabeça de quem gere isto tudo, é mais fácil gastar dinheiro a formar pessoas na idade óptima da actividade e produtividade e depois exportar o investimento formativo para o estrangeiro, do que reorganizar o ensino superior com uma visão realista, ou do que gerar emprego.

E é esta leitura de fundo que deve ser feita — deve tentar-se ir muito mais além da conclusão rápida e fácil de que «a classe médica é elitista e não quer alargar o círculo porque não quer partilhar o bolo». Nós não pensamos isto — nós não queremos é formar colegas que depois não podem ser especialistas, ou não podem ter trabalho! Chamem-me «corporativista», mas desculpem lá que vos diga que, lá porque isto aconteceu algures na história das outras profissões, não quer dizer que a «desgraça» tenha de bater à porta de todos.

Penso também duas coisas que não são logo assim tão directas:

  1. Penso que os Portugueses não querem continuar a pagar €10.591 por ano por estudante de Medicina (dados do Orçamento de Estado para 2005), para depois ele ir para o desemprego [a]!
  2. Ou que os Portugueses queiram, já a partir do próximo ano, passar a ser vistos por médicos «generalistas» nas Urgências, enquanto que ao que veio antes ou ao que vem a seguir lhe sai a «sorte» de ser visto por um especialista, ou médico interno de especialidade.

É algo com impacto sobre todos — médicos e doentes. Médicos já são alguns, mas doentes todos serão. Não esqueçamos isto, por favor.


Nota:

a: Comparando com €4.933 por ano por estudante de Arquitectura, ou com €2.274 por ano por estudante de Direito, por exemplo.

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