Categorias
O Fundamentalista Científico

Todos os estereótipos são verdadeiros, excepto… IV — «Não se pode julgar um livro pela capa»

Por Satoshi Kanazawa [a]

Tanto o Tom Hanks como o Ray Liotta são actores de Hollywood, brancos, bonitos e aproximadamente da mesma idade. Mas estou disposto a apostar que esses dois actores nunca fizeram audições para o mesmo papel, nas suas carreiras (imagine o Ray Liotta, sentado num banco do parque, proferindo a fala: «o meu nome é Forrest Gump. As pessoas chamam-me Forrest Gump»). Porquê? Por que são os actores estereotipados?

O Tom Hanks normalmente é o personagem bom nos filmes, enquanto o Ray Liotta desempenha, geralmente, o papel do vilão. Isto porque o Tom Hanks parece um bom rapaz, enquanto o Ray Liotta parece um mauzão. Se o leitor mostrar fotografias destes dois homens às pessoas de Papua Nova Guiné, que nunca viram filmes na vida, muito menos filmes com o Tom Hanks ou o Ray Liotta, eles provavelmente conseguirão dizer qual é o bom e qual é o mau. Isto sugere que o terceiro estereótipo, ou aforismo, sobre a aparência física: «não se pode julgar um livro pela capa», que significa que não se pode julgar o carácter das pessoas através da sua aparência física, pode ser falso.

Existem alguns dados experimentais que suportam esta ideia. Quando as pessoas vêem fotos doutras pessoas, que se revelaram cooperadoras ou desertoras, há alguma tendência para as pessoas recordarem os rostos dos desertores melhor do que os rostos dos cooperadores, mesmo quando não sabem quem são os cooperadores e quem são os desertor. Da mesma forma, as pessoas parecem ser capazes de distinguir entre as pessoas honestas e as pessoas desonestas, olhando simplesmente para as suas fotos.

Se pensarmos bem, faz perfeito sentido evolutivo. É importante que os nossos antepassados (e nós também) fossem capazes de proteger da possibilidade de serem enganados, porque o engano só pode ter consequências negativas para a sobrevivência e o sucesso reprodutivo. Por consequência, o cérebro humano inclui muitos mecanismos psicológicos evoluídos que nos protegem de ser enganados na nossa interacção social e nas nossas relações interpessoais. A capacidade de distinguir potenciais desertores («os maus») de potenciais cooperadores («os bons») através da sua aparência seria extremamente útil para os nossos antepassados (e para nós), na protecção contra possíveis fraudes.

Naturalmente, a natureza da corrida às armas evolutiva é tal, que desertores e outras pessoas desonestas serão selecionadas de forma a não trairem a sua natureza falsa, ganhando um aspecto honesto e fiável, para que as pessoas não sejam capazes de identificá-los como «maus». De qualquer forma, os dados contra o terceiro estereótipo: «não se pode julgar um livro pela capa» ainda não são tão convincentes quanto as provas contra os dois primeiros estereótipos: «a beleza está nos olhos de quem a vê» [2] e «quem vê caras não vê corações» [3]. É necessário investigar mais, para confirmar se o terceiro estereótipo é definitivamente falso.

A única excepção, para a qual já há provas sólidas, é quando o julgamento envolve atracção física. Os dados apontam esmagadoramente para que as pessoas atribuam às pessoas bonitas todos os tipos de características positivas, da inteligência à competência, passando pelo bom carácter e pelas capacidades sociais, reflectidos noutro aforismo: «beleza é riqueza». E os dados mostram que essa percepção é, em larga medida, verdadeira. Por exemplo, as pessoas bonitas são ligeiramente, embora significativamente, mais inteligentes do que as pessoas feias. Ninguém disse que a vida era justa.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

2 comentários a “Todos os estereótipos são verdadeiros, excepto… IV — «Não se pode julgar um livro pela capa»”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *