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A qualidade da formação e os arautos da desgraça

Por Carlos Lima

— É questionável a qualidade do futebol português…

Quando oiço afirmações desta natureza na rádio ou na televisão, ou as leio nos jornais, penso sempre que se fala de pequenas realidades, dentro duma realidade geral. Penso que quem as faz pensa essencialmente no futebol profissional, em particular nos clubes que são alvo da comparação internacional, devido às competições em que estão envolvidos.

Se analisarmos bem a actual situação, mesmo ao nível internacional, temos um clube na Liga dos Campeões, um clube na Liga Europa e dois clubes na Liga Jovem UEFA (sub-19). Ao nível das selecções jovens, lideramos o ranking mundial e vamos receber em 2014 o Troféu Maurice Burlaz, que é atribuído aos países com melhores resultados ao nível do futebol masculino jovem [1].  Ao nível do futebol sub-21, fizemos uma qualificação para o campeonato da Europa só com vitórias. Ora, se isto não é qualidade, então de que estamos a falar?

Claro que os famosos arautos da desgraça, velhos do Restelo [2] encapuzados de bem pensantes, atacam em força cada falhanço, atacados de surtos de «clubite» que lhes consomem a pele. Narcisos [3] das palavras, nas quais se revêem como se fossem inventar a comunicação, as palavras e a escrita, tudo ao mesmo tempo.

Estou cansado de vê-los e de ouvi-los, porque não me reconheço, nem vejo reconhecido o trabalho anónimo de inúmeros artistas que formam artistas. Gente grande em toda a grandeza da palavra, gente miúda cheia de valor. Claro que nem todos chegam ao topo, mas não é esperado que isso aconteça [4], ainda que acredite que há lugar para toda a gente de valor. Primeiro, porque nem todos sonham com isso; segundo, porque alguns deixam cair o sonho numa qualquer ponte que têm medo de atravessar.

Sei como se fazem as escolhas para as selecções distritais e talvez assim tenha de ser, porque em dois ou três treinos é difícil para alguns miúdos mostrarem o seu real valor. Depois, há o peso dalguns emblemas, que impõem um leque alargado de jogadores que se apoiam mutuamente, o que já lhes permite mostrar algumas rotinas, ganhando clara vantagem para chegar ao topo.

Mas o que me confunde no futebol português é a avidez dalguns empresários, que dominam os níveis mais elevados da formação, tornando impossível o acesso a quem não seja representado. A ferocidade é tal, que não hesitam em destruir uma carreira e mesmo um jovem, com a conivência das cúpulas dos clubes tão susceptíveis a isto, ou mesmo envolvidas nisto, porque, segundo os jornais, há presidentes de clubes que são, ou eram, proprietários de «fundos de jogadores», entre os quais os do próprio clube. Há muita gente no futebol empresarial que não quer deixar que mais alguém entre.

Isto é um verdadeiro problema. Um dia, ouvi o Professor Arcélio Martins [5] falar sobre os problemas que existiam antes da revolução de Abril de 1974, em que a tónica era colocada não só na questão da privação da liberdade, mas na morte da iniciativa individual e «matar a iniciativa individual é naturalmente matar a ambição do indivíduo em mudar a sua condição social».

Em teoria, as oportunidades existem para todos, mas, na prática, pode não ser assim, se alguns usarem os mais diversos meios para limitar o lugar aonde outros podem chegar com mais qualidade. Sei que, quando somos sérios e levados a sério, temos qualidade para fazer o que tanto se apregoa e elogia nos outros países e nos cidadãos desses países — e o futebol é bem exemplo dessa nossa capacidade de estar entre os melhores.

Mais uma vez, o Benfica passou a fase de grupos da Liga Jovem UEFA, onde, no ano passado, chegou à final, perdendo com o Barcelona. Agrada-me que, este ano, o Porto também tenha passado a fase de grupos. Vamos ver o que fazem… Mas isso permite-me acreditar que há jogadores, treinadores e gente no futebol, em geral, com muita qualidade… Mas quem ouviria esses senhores se falassem do que já se faz bem e com isso incentivassem à melhoria contínua da qualidade dos projectos, por estímulos positivos, no país da gente de Chora-que-logo-bebes [5]?

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