Categorias
Noutras Ruas

A fraude científica está mais disseminada do que se imagina

Por Gustavo Martins-Coelho [a]

A fraude é omnipresente, incluindo na ciência. Dois estudos científicos analisaram a proporção de estudos publicados que veio a ser retractada. Existem duas razões fundamentais para a retractação: um erro involuntário, seja na execução do estudo, seja na interpretação dos resultados; e má fé, que vai desde a auto-citação, como forma de empolar a produção científica do próprio, até à fraude — a manipulação, ou mesmo a invenção dos resultados.

Os dois casos mais famosos de fraude científica são o estudo que ligou a vacina tríplice contra a papeira, o sarampo e a rubéola ao autismo e o anúncio da clonagem dum embrião humano. No primeiro caso, não só os resultados foram fabricados, mas também as crianças envolvidas no estudo foram submetidas a exames penosos desnecessariamente. Pior: apesar da retractação, este estudo desencadeou um movimento anti-vacinas, com o potencial de prejudicar a saúde da comunidade, como um todo. Já no segundo caso, todo o caso foi fabricado, com recurso a fotografias falsas.

O primeiro estudo analisou apenas a década de 2000: foram retractados 742 artigos indexados na PubMed [2], dos quais 73,5% por erros e os restantes por fraude. O segundo estudo, porém, analisou os 2047 artigos retractados durante os últimos 35 anos, para descobrir que 43,4% o foram por fraude, 9,8% por plágio e 14,3% por duplicação do próprio trabalho — um total de 67,4% de retractações por violação da deontologia científica! Esta diferença explica-se pela análise mais profunda da literatura, que o segundo estudo realizou, indo além das notas de retractação, que, muitas vezes, omitem ou disfarçam o real motivo da mesma. Assim, é possível que estejamos, ainda, perante um valor de fraude subestimado.

Estes números representam menos de 1 por 10.000 artigos publicados, o que é reconfortante no que toca à credibilidade da ciência. Porém, há sempre margem para melhorar; e medidas como o reforço da formação ética dos cientistas, a harmonização das notas de retractação, a aplicação de sanções e a criação dum registo centralizado dos prevaricadores poderão promover a honestidade científica.

Acresce que o número de fraudes está em crescimento. Embora tal tenha seguramente a ver com o maior escrutínio da actualidade, nomeadamente em relação ao plágio, seria ingénuo achar que a forma como a ciência é actualmente construída não está relacionada. O aumento da fraude poderá estar relacionado com a lógica económica da «ciência dos resultados», que confere ao primeiro a publicar — ao vencedor — prémios desproporcionais em matéria de bolsas, de emprego e de projectos financiados, numa altura em que a despesa com a ciência é cada vez mais diminuta.


Nota:

a: O artigo original pode ser lido no Le Monde [1].

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *