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Por Gustavo Martins-Coelho

Não há duas sem três. Estava eu encostado ao balcão, à espera de que a secretária terminasse o telefonema, para poder, enfim, entregar a papelada no secretariado da clínica, quando veio uma mulher e se encostou lá ao meu lado. Quando a secretária achou por bem dar por terminada a sua conversa telefónica de duas horas com a amiga, como boa secretária da função pública que se preze, a senhora começou logo a dizer ao que vinha e o que queria. Eu virei-me para ela e disse-lhe:

— Olhe, com o devido respeito, eu estava aqui antes de si e não gosto de ser passado à frente.

A gentil senhora virou-se para mim e, aos berros, recomendou-me que tivesse educação, pois o médico a mandara ir lá, e explicou-me que, se eu fosse filho dela, não falaria assim com ela. Disse-lhe, então:

— O médico disse-lhe para vir cá, mas não lhe disse que podia passar à frente das outras pessoas; portanto, eu já cá estava e vou ser atendido primeiro, quer a senhora queira, quer não.

Virei-me para a secretária e não liguei mais à dita senhora, que continuou para lá, no meio da sala de espera, a berrar, para toda a gente, incluindo alguns doentes surdos, ouvir. Às tantas, eu entrei rapidamente para a sala de espera reservada e ela ficou para lá a barafustar com as pessoas que continuavam à espera — isto contou-me uma outra senhora, que presenciou toda a cena e entrou pouco depois de mim para a parte reservada:

— Sabe, o menino tinha razão, mas ela ainda está lá fora a espingardar com as pessoas que estão à espera.

Fiquei com a impressão de que a senhora estava amedrontada. É normal: temos medo de apontar os erros dos outros; é frequente a parte ofendida acabar a ter de se desculpar.

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