Categorias
Olho Clínico

Mais pobre

Por Sara Teotónio Dinis

O frio foi-se instalando desde o final de Outubro. Os dias nunca mais se repetiram — foi um relatório e uma oral e mais dois relatórios e mais duas orais e o saltitar de serviço em serviço e de andar em andar [1].

Passaram-se os dias até Dezembro entre livros e anotações, entre a preocupação de chegar a horas ao internamento e de também ir à Unidade.

Depois da contenda, faltavam dois dias para a consoada, quando reparei que não tinha árvore de Natal em casa. Nem meias penduradas. Nem grinaldas. Nem o presépio.

Comprei as prendas todas em Novembro, porque ia estar ocupada com o final de mais um estágio em Dezembro, mas não havia pista nenhuma do Natal, nem na minha sala, nem no meu espírito.

Quando parei para pensar no assunto, tentei perceber o motivo, mas não quis pensar nas dificuldades das últimas semanas, nem no ambiente pouco amigável onde tinha sido obrigada a estar no hospital. Talvez fosse tudo cansaço e falta de dormir.

Amanhã é a consoada e o lado da família T.P. vai estar de novo reunido. A família está em constante evolução. Nota-se de ano para ano, de Natal em Natal. O balanço do ano 2013–2014 foi agridoce, sendo que os mais velhos perderam um elemento, mas os mais novos ganharam dois.

Falta a figura, mas sobretudo a presença da matriarca, minha avó. Deixou oito filhos e, agora que já cá não está para os unir e eles têm cada um os seus, juntá-los no Natal é um desafio diplomático.

Do lado da família L.D., a história repete-se. Faz falta o meu avô e faz falta a minha avó. Já cá não está ninguém para impôr respeito e distribuir juízo.

Este Natal, por mais prendas que receba, sou mais pobre, porque quem me rodeia acha que a ocasião é um frete e porque não consegui fazê-lo nascer em mim.

No dia 25, com o meu irmão e os meus pais, talvez ele apareça, no aconchego da lareira de nossa casa e do calor humano de quem nos deu a vida.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *