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O Fundamentalista Científico

Só há uma cultura humana

Por Satoshi Kanazawa [a]

Muitas vezes, as pessoas referem-se à cultura no plural («culturas»), porque acreditam que existem muitas culturas diferentes no mundo. Por um lado, isso é bem verdade: a cultura americana é diferente da cultura chinesa e ambas são diferentes da cultura egípcia — e assim por diante. No entanto, todas as diferenças culturais são superficiais: no fundo, ao nível mais fundamental, todas as culturas humanas são essencialmente a mesma.

Sim, a cultura e socialização são importantes para o comportamento humano, a um certo ponto. Mas o erro crasso dos sociólogos tradicionais e doutros sob a influência do modelo padrão de ciência social (termo atribuído aos co-fundadores da psicologia evolutiva, Leda Cosmides e John Tooby) é acreditar que o comportamento humano é infinitamente maleável, capaz de ser moldado sem limites e de qualquer forma pelas práticas culturais e pela socialização. Os dados disponíveis mostram que essa visão é falsa. O comportamento humano, ainda que maleável, não é infinitamente maleável pela cultura, porque a cultura não é infinitamente variável. De facto, apesar de todas as pequenas diferenças superficiais, os psicólogos evolutivos demonstraram que todas as culturas humanas são essencialmente a mesma.

Para usar uma metáfora famosa, cunhada pelo antropólogo cultural Marvin Harris, é verdade que, à superfície, as pessoas, nalgumas sociedades, consumem carne de vaca como alimento e adoram porcos como objectos religiosos sagrados, enquanto outras consomem carne de porco como alimento e adoram vacas como objectos religiosos sagrados. Portanto, há variedade cultural, a este nível concreto. No entanto, tanto a carne bovina como a suína são proteínas de origem animal (como são os cães, as baleias e os macacos), e tanto os porcos como as vacas são entidades animadas (como são Buda, Alá, e Jesus). E as pessoas de todas as sociedades humanas consumem proteínas animais e adoram entidades animadas (como expliquei num artigo anterior [2]). A este nível abstracto, não há excepções e todas as culturas humanas são a mesma. Não há variabilidade infinita na cultura humana, no sentido de que não há culturas em que as pessoas não consumam proteínas animal ou adorem entidades animadas.

Para usar outro exemplo, é verdade que as línguas faladas em diferentes culturas parecem completamente diferentes, como qualquer um que já tentou aprender uma língua estrangeira sabe. O Inglês é completamente diferente do Chinês e nenhuma das duas se assemelha ao Árabe. Apesar destas diferenças superficiais, contudo, todas as línguas humanas naturais partilham o que o linguista Noam Chomsky chama «estrutura profunda» da gramática. Neste sentido, o Inglês e o Chinês são essencialmente o mesmo, no mesmo sentido em que que a carne de vaca e de porco são essencialmente o mesmo.

Qualquer criança com desenvolvimento normal pode aprender a falar qualquer língua humana natural, enquanto cresce. Independentemente do idioma dos seus pais biológicos, todas as crianças com desenvolvimento normal são capazes de se tornar falantes nativas de Inglês, Chinês, Árabe, ou qualquer outra língua humana natural. De facto, quando um grupo de crianças cresce junto, sem um adulto para lhes ensinar a língua, eles inventam a sua própria língua humana natural, incluindo a gramática. Isso não significa, porém, que a capacidade humana para a linguagem é infinitamente maleável. As crianças humanas não conseguem aprender a falar línguas artificiais, como FORTRAN ou a lógica simbólica, apesar destas serem muito mais lógicas e mais fáceis de aprender do que qualquer linguagem natural (sem verbos irregulares, nem excepções a regras). Sim, uma criança com desenvolvimento normal pode aprender a falar qualquer língua, desde que a mesma seja um produto da evolução humana e não uma invenção recente de cientistas da computação ou especialistas em lógica.

Pierre van den Berghe, um sociobiólogo pioneiro da Universidade de Washington, explica muito bem a ideia, quando diz:

Decerto, somos únicos, mas não somos únicos em ser únicos. Cada espécie é única e evoluiu a sua singularidade na adaptação ao seu ambiente. A cultura é a forma exclusivamente humana de adaptação, mas a cultura também evoluiu biologicamente.

Apesar de todas as diferenças superficiais, existe apenas uma cultura, porque a cultura, tal como o corpo, é um produto da evolução adaptativa humana. A cultura humana é um produto dos nossos genes, tal como as nossas mãos [3] e o pâncreas [4].

Biologicamente, o ser humano é muito fraco e frágil: não temos presas, para combater predadores e capturar presas, nem pele, para nos proteger do frio extremo. A cultura é o mecanismo de defesa com o qual a evolução nos equipou para nos proteger, para que possamos herdar e transmitir o nosso conhecimento de fabrico de armas (para combater predadores e capturar presas) ou de vestuário e de abrigo (para nos proteger do frio extremo). Nós não precisamos de presas ou de pele, porque temos cultura. E, assim como — apesar dalgumas pequenas diferenças individuais — todos os tigres têm mais ou menos as mesmas presas e todos os ursos polares têm mais ou menos a mesma pele, todas as sociedades humanas têm mais ou menos a mesma cultura. As presas são um traço universal de todos os tigres; o pêlo é um traço universal de todos os ursos polares. Assim, a cultura é um traço universal de todas as sociedades humanas. Sim, a cultura é um universal cultural.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

2 comentários a “Só há uma cultura humana”

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