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O Fundamentalista Científico

Culturas exóticas que nunca existiram: parte I — Margaret Mead e os Samoanos

Por Satoshi Kanazawa [a]

Num artigo anterior [1], eu expliquei que, ao nível mais abstracto, todas as culturas humanas são iguais e só há uma cultura humana. Nada ilustra melhor este ponto, do que a história recente (e um pouco vergonhosa) das ciências sociais, que mostra que, de cada vez que havia a notícia duma descoberta duma nova cultura exótica, numa região remota do mundo, completamente diferente da cultura da Europa Ocidental, se verificava, mais tarde, que a descoberta era uma farsa. Todas as vezes se verificou que não existem culturas humanas radical e completamente diferentes doutras culturas. O primeiro exemplo é a pesquisa de Margaret Mead sobre os Samoanos.

Em 1923, Margaret Mead (1901-1978), um dos antropólogos mais célebres de todos os tempos, era estudante de pós-graduação em Antropologia, sob a orientação de Franz Boas (1858-1942), na Universidade de Colúmbia. Franz Boas era um refugiado judeu da Alemanha nazi e, portanto, estava política e pessoalmente motivado para demonstrar que a política nazi da eugenia estava errada. Embora este seja um objectivo admirável em si, Franz Boas escolheu, infelizmente, a estratégia errada para alcançá-lo. Ele queria mostrar que a biologia não tinha a ver com a forma como os seres humanos se comportam e que o ambiente — a cultura e a socialização — determinavam completamente o comportamento humano. Ele era um forte defensor do determinismo cultural.

Com o objectivo de demonstrar que a cultura e a socialização determinam o comportamento humano na sua totalidade, Franz Boas deu aos seus alunos de pós-graduação (incluindo Margaret Mead) a tarefa impossível de encontrar uma cultura humana radicalmente diferente da cultura ocidental, onde as pessoas se comportassem de forma completamente diferente dos Americanos e dos Europeus. Margaret Mead foi enviada para Samoa, com este mandato de Franz Boas.

Em 31 de agosto de 1925, Margaret Mead chegou à Samoa americana, para realizar a sua pesquisa. Ela tinha seis meses para fazer o seu trabalho de campo. Sem o conhecimento de Franz Boas, porém, Margaret Mead estava envolvida noutro projecto de investigação secreto e passou quase todo o seu tempo em Samoa a fazer essoutro trabalho. Quando estava para deixar Samoa dentro dum mês, Margaret Mead não tinha ainda feito qualquer trabalho de campo para Franz Boas, sobre o tema da variabilidade cultural e comportamental, para encontrar sinais de que o comportamento dos Samoanos fosse completamente diferente do comportamento americano. Ela decidiu terminar este trabalho rapidamente, através de entrevistas com duas jovens locais, sobre o comportamento sexual dos adolescentes em Samoa, no dia 13 de Março de 1926.

Margaret Mead sabia que, nos Estados Unidos e no resto do mundo ocidental, os rapazes eram sexualmente agressivos e perseguiam activamente as raparigas, enquanto as raparigas eram sexualmente tímidas e esperavam por serem convidadas para sair pelos rapazes.

— Quão diferentes são as coisas em Samoa? Como são os rapazes e raparigas de Samoa, quando se trata de sexo? — perguntou Margaret Mead às suas duas jovens entrevistadas, Fa’apua’a Fa’amu e Fofoa Poumele.

Fa’apua’a e Fofoa, à semelhança das mulheres jovens de todos os lugares, estavam bastante embaraçadas por terem de falar sobre sexo com um total desconhecido. Então, elas decidiram fazer uma grande piada sobre o assunto, por pura vergonha. Disseram a Margaret Mead o contrário de como as coisas sucediam em Samoa. Disseram-lhe que os rapazes eram muito tímidos e que as meninas perseguiam activamente os rapazes. Era mentira, mas, nas mentes de Fa’apua’a e de Fofoa, a história que estavam a contar a Margaret Mead era tão inverosímil e obviamente falsa, que elas não podiam acreditar que alguém no seu perfeito juízo a tomaria ao pé da letra.

Só que Margaret Mead acreditou, porque esse era exactamente o tipo de «dados» que Franz Boas lhe havia mandado recolher em Samoa. Aqui estava a prova de que o comportamento sexual dos adolescentes podia ser completamente diferente (ou melhor, o oposto) de como é nos Estados Unidos. Assim, a cultura determina completamente o comportamento humano, no fim de contas! Margaret Mead estava extática. Ela partiu de Samoa em Abril de 1926 e publicou as suas «descobertas» em 1928, num livro intitulado «Coming of age in Samoa». O livro tornou-se imediatamente um êxito de vendas internacional e, posteriormente, um clássico na antropologia cultural; e, entre outras coisas, formou a base do feminismo moderno. As feministas apontaram os «dados» do livro como suporte da sua afirmação de que, dada uma  diferente «socialização de género», os rapazes e as raparigas ocidentais poderiam ser completamente diferentes. Os rapazes poderiam ser mais como as raparigas e as raparigas poderiam ser mais como os rapazes. Portanto, num certo sentido, o feminismo moderno foi fundado com base numa farsa.

Mais de sessenta anos depois, em 2 de Maio de 1988, Fa’apua’a, que tinha então 86 anos de idade, disse a um funcionário do governo de Samoa (que, por acaso, era o filho de Fofoa, que falecera em 1936), que tudo o que ela e a sua amiga disseram a Margaret Mead sobre o comportamento sexual dos meninos e das meninas de Samoa na fatídica noite de 13 de Março de 1926 era falso. Era uma brincadeira. Na verdade, a esmagadora maioris dos dados etnográficos, até agora, mostram que os adolescentes samoanos não são diferentes dos adolescentes de qualquer outro lugar no mundo. Os rapazes são sexualmente agressivos e activos e as raparigas são sexualmente recatadas e tímidas.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

2 comentários a “Culturas exóticas que nunca existiram: parte I — Margaret Mead e os Samoanos”

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