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O mundo de César — parte I

Por Hélder Oliveira Coelho

A mulher de César era uma senhora fina, boa mãe, óptima esposa, mulher caridosa e preocupada com o universo. Era uma mulher de sonho para qualquer César. O âmago da perfeição (desde que em segundo plano). A César, cabiam as grandes decisões do mundo.

A actual mulher de César é muito diferente. Arrogante, fumadora compulsiva, implacável em todas as decisões. A mulher de César já é mãe independente, pouco precisa de César, seja lá para o que for. E, se César não estiver contente, César que se mude. A autonomia financeira de mulher de César chega para ela viver muito bem sem ele. Todavia, a mulher de César há-de sugar-lhe tudo quanto puder, no decurso do divórcio.

Os filhos de César são frágeis e inadaptados. Cedo ou tarde se notará o défice de adaptabilidade social. César não entende o motivo. Pagou sempre a pensão de alimentos e cumpriu os prazos das visitas semanais, que o tribunal estipulou. A mulher de César sabe que a culpa é de César, obviamente.

Os pais de César vivem sozinhos, vêem César uma ou duas vezes por ano e os netos uma ou duas vezes a cada dois anos. São pessoas conformadas. Sabem que César só não os visita porque tem muito trabalho e, nas férias, César precisa de fugir à rotina, na viagem pelo mundo a que se habituou. Os pais de César estão expectantes no futuro. Já escolheram a residência sénior, onde passarão os últimos dias. É um lugar agradável. Têm direito a um quarto amplo, com janela, até podem personalizar… Haverá coisa melhor para um velho passar o fim dos dias, do que um quarto personalizado?

César é um homem de sucesso. Bem na vida, com bom emprego, divorciado, mas bem resolvido. A mulher de César é uma líder nata; entre os pares, é uma cabra — mas ninguém ousa enfrentá-la. Conquistou o respeito social e mantém os jeitos de menina, que os tratamentos de estética permitem comprar.

Os filhos de César hão-de conquistar o seu espaço. Afinal, não fazem parte da estatística negra da ONU. São crianças felizes do primeiro mundo.

Aos pais de César, a memória dum filho criado com tudo aquilo que eles não puderam ter.

Chegou o Natal. César, a outrora mulher de César, os filhos de César e os pais de César celebram a família e trocam presentes.

Eis o primeiro capítulo do novo mundo de César. No próximo Natal, relatarei o mundo de César desempregado e o mundo de César concorrente à Casa dos Segredos.

Termino com duas notas mentais.

A todas as mães e amigos, portadores de grandes fortunas, que queiram ajudar os filhos, ou amigos, com malas de dinheiro, por favor, não o façam. Há por aí muito boa gente presa por causa disso. Assim, este País não vai longe.

A música com que vos deixo hoje é um clássico da música francesa, em que o amor há-de chegar, na voz de Edith Piaf… «Comme moi» [1].

2 comentários a “O mundo de César — parte I”

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