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Para lá das «pontuações do transporte colectivo»: um intercâmbio com Matt Lerner

Por Jarrett Walker [a]

O Matt Lerner, do WalkScore.com [2] e eu trocámos recentemente correspondência sobre o serviço da WalkScore.com chamado «Transit score», que fornece uma pontuação de dois dígitos, que supostamente captura a utilidade do transporte colectivo em qualquer endereço dos EUA. Este serviço foi desenhado por analogia com o bem sucedido (ainda que controverso [3]) «Walk score», uma ferramenta semelhante, destinada a resumir o quão agradável um lugar é para os peões. Por exemplo, 300 Turk Street, em São Francisco, é classificado com 100 (perfeito) tanto no «Walk score» como no «Transit score».

No outro extremo, 7000 Lake Mead Blvd, a Leste de Las Vegas. O «Walk score» é 52, o «Transit score» é 33.

Ferramentas como esta têm uma enorme relevância potencial para o sector imobiliário e, em geral, para qualquer pessoa toma decisões sobre a localização de qualquer coisa. Dado que nós encorajamos as pessoas que valorizam o transporte colectivo a escolher localizações onde é viável pretar um  bom serviço, todos ganham.

Anteriormente, a equipa de Matt já tinha criado uma «ferramenta de tempo de viagem em transporte colectivo» [4], que pode ser usada para mostrar a área real que é acessível num determinado período de tempo. Eu usei essa ferramenta como o centro da minha definição de mobilidade [5], num dos primeiros artigos desta coluna.

Então, qual é mais útil: o simples «Transit score» de dois dígitos, ou um mapa real dos locais acessíveis num determinado período de tempo?

Aqui está o que eu escrevi ao Matt:

Caro Matt,

Há cerca dum ano, eu mencionei [5] a ferramenta de [tempo de viagem em] transporte colectivo como uma forma útil de visualizar a mobilidade […]

O primeiro esboço do livro que estou a escrever […] descreve e elogia esta ferramenta da WalkScore.com com algum detalhe, como uma maneira para as pessoas entenderem o grau de liberdade que o transporte colectivo lhes vai oferecer. Eu acho que pode ser uma ferramenta crucial para ajudar as pessoas a ver além de fetiches modais, para entender como o transporte colectivo realmente funciona e como determinar se o transporte colectivo pode realmente levá-las aonde elas pretende.

[…] O «Transit score» é inútil para mim, porque ele codifica um viés intrínseco [6] a favor de modos de transporte ferroviário, como se a ferrovia fosse intrinsecamente mais rápida, o que é totalmente enganoso, num mundo de eléctricos a 10 km/h e autocarros a 90 km/h. [Refiro-me à inclusão na metodologia do  «Transit score» [6] dum «factor de ponderação do modo», definido como «(comboio e metro são ponderados a 2x, barco, eléctrico e outros são ponderados a 1,5x e autocarro é ponderado a 1x)». Note-se que, ao contrário da ferramenta de tempo de viagem, o «Transit score» não consegue determinar a distância que o passageiro pode percorrer e a que velocidade, pelo que usa o modo como sinónimo de velocidade — fatalmente, na minha opinião.]

Em suma, ao passo que a ferramenta apresentada anteriormente informação bruta de forma convincente, a qual o utilizador poderia aplicar aos seus próprios fins, o «Transit score» contém juízos de valor («nós sabemos que você prefere andar de eléctrico lento do que de autocarro expresso»), que o utilizador pode não partilhar e, portanto, pode ser um obstáculo à sua capacidade de usar o transporte colectivo para satisfazer as suas necessidades.

Portanto, eu acho que eu vou optar por referir e elogiar o Mapnificent.net [7].

Esta tema é o próprio fundamento do meu livro actual, pelo que, como admirador do vosso trabalho, eu gostaria de compreender melhor por que a Walkscore.com abandonou a ferramenta de acessibilidade inicial. Era uma questão do processamento necessário para fazer o que é basicamente uma busca maciça de serviços de planeamento de viagens em transporte colectivo? Eu consigo entender que o «Transit score» seja um cálculo muito mais rápido, mas pergunto-me se essa era a questão fundamental.

[…]

Jarrett Walker

O Matt respondeu:

Olá, Jarrett!

Obrigado por nos ter escrito.

Tem razão, quanto a estarmos a promover o «Transit score» mais do que os mapas de tempo em transporte colectivo — mas não abandonámos a ideia. Estamos a trabalhar em novas formas de lhes dar uso; e eles ainda estão disponíveis aqui: http://www.walkscore.com/transit-map.php.

Passo a explicar a razão por que temos vindo a promover o «Transit score» de forma mais intensa. A nossa missão é promover bairros amigos do peão e do transporte colectivo e cremos que a melhor maneira de conseguir isso é ter tanto o «Walk score» como o «Transit score» nos anúncios de imóveis.

Quando desenvolvemos o «Transit score», nós considerámos alguns métodos de cálculo duma pontuação de transporte colectivo. Os dois finalistas foram o nosso método actual [6] e um método em que somávamos o «Walk score» das áreas constantes dos nossos mapas de transporte colectivo. Na prática, os resultados eram muito semelhantes entre os dois métodos, pelo que escolhemos o método actual, que é muito mais fácil de calcular (nós apresentamos milhões de «Transit scores» por dia).

Nós queremos resumir o acesso em transporte colectivo a uma pontuação única, de forma que esta possa aparecer nos anúncios de imóveis e as pessoas possam comparar localizações. A Ziprealty.com adicionou o nosso «Transit score» a milhões de anúncios e temos mais alguns parceiros a caminho.

Nós não recebemos muito interesse dos consumidores e parceiros nos mapas de tempo em transporte colectivo — o que é lamentável, porque eu adoro-os. Um cenário que estou a tentar promover com os nossos mapas de tempo em transporte colectivo (só precisamos dum parceiro) é permitir que as pessoas pesquisem as páginas das imobiliárias por tempo em transporte colectivo. Isto é: encontre-me um apartamento a trinta minutos do trabalho em transporte colectivo. Eu também gostaria de integrar os pontos de acesso ao transporte colectivo no padrão «Walk score».

Eu gosto da simplificação que a Mapnificent.net [7] fez, que foi não incluir o tempo de caminhada até aos pontos de acesso ao transporte colectivo — o que torna o resultado muito mais fácil de calcular.

Assim, para resumir, eu gosto da sua sugestão de evitar quaisquer juízos de valor sobre o modo — só que, na prática, o nosso método actual obtém resultados muito semelhantes e é mais fácil de calcular. De qualquer forma, gostaria de ouvir a sua opinião a este respeito.

Além disso, vamos lançar uma versão beta do «Walk score», sensível às ruas, no final deste mês e adoraríamos receber a sua opinião sobre isso também.

[…]
Matt

Ao que eu respondi:

Matt

Obrigado! […] Imagine, por hipótese, que tinha a capacidade de processamento e os dados necessários para executar um «Transit score» puramente baseado na mobilidade. Chamemos-lhe «Transit mobility score». O algoritmo seria algo como: identificar a área alcançável em trinta minutos em transporte colectivo a partir do ponto selecionado (escolhi trinta minutos, porque parece ter uma longa história como um tempo de viagem aceitável). Em seguida, aceda a uma base de dados da população e do emprego por zona e calcule a percentagem de postos de trabalho da região e da população que estão nessa faixa de trinta minutos.

Isso também lhe dá um número de dois dígitos, mas agora é um facto e não uma pontuação. O que este valor diz é: «se o utilizador se mudar para aqui, terá acesso em transporte colectivo a x % da actividade da região». E isso parece-me algo que um agente imobiliário pode valorizar, entender e explicar. Até que ponto alguém será capaz de fazer esse tipo de algoritmo? Obviamente que é necessário ter os dados disponíveis, pelo que seria boa ideia começar num lugar como Portland, onde geralmente é mais fácil obter a colaboração das autoridades competentes.

Na verdade, provavelmente seria necessário fazer duas pontuações dessas: uma com base na mobilidade às 8h00 e outra para a mobilidade durante todo o dia — digamos, às 13h00. Mas eu creio que um agente imobiliário pode entender as diferenças entre as duas pontuações também. Toda a gente entende que o transporte colectivo à hora de ponta é diferente do meio-dia — e que ambos importam. As áreas suburbanas, sobretudo aquelas servidas por comboios urbanos e autocarros suburbanos expresso, iriam apresentar uma grande diferença entre os dois valores.

Eu creio que esta ideia poderia ser excelente. Porque o resultado é um facto, não um juízo de valor. […]

Jarrett

O Matt respondeu que esta ideia «parece uma ferramenta de planeamento incrível e uma que poderia realizar, se tivesse uma bolsa, ou forma de financiá-la.»

Eu ainda acho que esta ideia poderia ser excelente. E se toda a gente que precisa de tomar uma decisão sobre localização pudesse consultar a WalkScore.com [4] ou a Mapnificent.net [7] e ver num mapa os locais acessíveis em trinta minutos em transporte colectivo? Estaríamos, finalmente, a tornar a mobilidade visível.

E se conseguíssemos medir a nossa mobilidade com tanta precisão, para tantos casos hipotéticos, que pudéssemos avaliar mais a mobilidade real e ser menos distraídos por símbolos não fiáveis de mobilidade — como, por exemplo, se há carris na rua [8]. Os tecnófilos não devem ficar muito alarmados: muitas pessoas ainda terão preferências de modo. Mas, no entretanto, aqueles de nós que querem apenas mobilidade seríamos capazes de medi-la, rapidamente, para qualquer lugar onde pudéssemos situar algo, incluindo as nossas casas.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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