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O Rato

Por Hélder Oliveira Coelho

A 10 de Janeiro de 1932, nascia aquele que veio a marcar a História do Séc. XX; atrevo-me a dizer que a História dos próximos séculos.

De pequena e frágil estatura, por vezes desajeitado, por vezes temperamental, quase impulsivo, se movido pelo ciúme; ainda assim, um coração nobre e um forte — inabalável — sentido de justiça.

Contudo, o que melhor e mais facilmente o caracteriza é o sorriso. Inebriado dum optimismo contagiante, carrega as doçuras da esperança nos outros, a coragem e tenacidade dos justos. Durante décadas, arrancou sorrisos, lágrimas, emoções, mas fundamentalmente, plantou sonhos. Nasceu a 10 de Janeiro, sob o signo de Capricórnio, o Rato Mickey [1]!

Começar um discurso com o elogio ao Rato Mickey, no mundo em que vivemos, pode parecer um sacrilégio. A sociedade prima pela «despersonificação» dos homens, atribuindo à vida e ao sofrimento humanos o mesmo valor que se pode dar a um qualquer tubérculo. A estas gentes, é urgente a necessidade de recordar que se personificou num rato o sorriso da inocência duma criança.

Manifestam-se nas ruas pelos cães, pelos gatos, pelos touros, pelos animais de circo…, os mesmos que raras vezes se recordam das mais miseráveis vilezas que se perpetuam sobre os da sua própria espécie. Com isto, não digo que o caminho da humanização dos povos não passe também pelo mais fraterno respeito pelas restantes espécies. No entanto, enquanto uma criança sofrer as atrocidades da escravidão tenebrosa do analfabetismo, a nós não deve faltar o fôlego para o denunciar. Atente-se que, ao falar de analfabetismo, faço uso dum eufemismo. O sofrimento físico, o abuso de crianças é de tal forma vil, que se torna inenarrável. É tão doloroso, que um homem de bem tem dificuldade em imaginá-lo, tanto mais em dizê-lo sem pruridos.

Também em Portugal, não estamos de mãos limpas neste flagelo. Poucas serão as que morrem, é certo. Mas uma que seja já será demais.

Recordo agora a notícia que mais vendeu este ano. O casamento do sr. Clooney. Disto se ocupam as almas da sociedade desenvolvida. O ébola [2], que assola os pobrezinhos; as guerras, que matam lá longe; os trabalhos forçados, que escravizam tão longe como longe está a consciência dum povo que não se move para impedi-lo. A indiferença piedosa com que nos preocupamos com eles é a mesma com que enviamos os nossos filhos para a escola. A mesma com que lhes compramos tudo o que eles pedem (e não pedem), para que, no dia do seu insucesso, possamos dizer:

— Eu dei-lhe tudo…

E, para os que tudo têm, a maior escravidão é a da solidão. A ausência de alma no objecto. A «despersonificação».

Ao Rato, atribuímos as características que são de um homem de bem.

Longa vida ao sonho do Rato Mickey!

Deixo-vos com «It’s a small world» [3]. Por indicação de Walt Disney e criação dos irmãos Sherman, completou cinquenta anos em 2014, que agora termina.

Bom ano de 2015.

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