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Perspectivas em Saúde

Lições a retirar do que se passou no Feirense-Chaves

Por Gustavo Martins-Coelho



Olá!

Hoje, tinha previsto falar de mortalidade e excesso de mortalidade por Covid-19; mas, entretanto, aconteceu o que aconteceu no jogo Feirense-Chaves e creio que se justifica, passados estes dias, reflectir sobre lições a extrair desse assunto.

Logo à cabeça, a primeira lição é de que nem tudo o que se vê na comunicação social é para acreditar, sobretudo notícias «de última hora». As primeiras notícias, minutos depois, de ser conhecido o adiamento, davam conta de que o jogo tinha sido adiado, «já com os jogadores das duas equipas em campo prontos para dar o pontapé de saída» por ordem da DGS, por causa de «dois casos de Covid-19 no plantel dos flavienses», que já eram conhecidos desde a manhã do próprio dia [1]. A notícia, assim dita, é um tremendo atestado de incompetência passado às autoridades de saúde, que parece que demoraram um dia inteiro a reagir, a tomar medidas, que deixaram a comitiva do Chaves fazer uma viagem para nada e só se lembraram em cima da hora de que o jogo não se poderia realizar. De tal forma assim é que, minutos depois, já o presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, concelho de Chaves, tecia no Facebook considerações sobre «o desgoverno português» [2], sem se preocupar minimamente com o impacto que tais declarações têm na comunidade e na relação de confiança necessária entre as autoridades de saúde e as demais instituições e a própria comunidade.

A segunda lição é que, uma vez estabelecida uma narrativa, é difícil mudá-la. Três dias depois, já com imensas notícias publicadas e a linha cronológica real mais ou menos definida, ainda Camilo Lourenço dizia, também no Facebook, coisas como: «na Sexta-feira, estava o jogo marcado, […] detectou-se durante o dia que alguns jogadores estavam infectados com Covid-19, […] ficou aquilo tudo em stand-by o resto do dia, e só à noite, à hora do jogo, já os jogadores estavam no campo, é que a Direção-Geral da Saúde comunicou que o jogo não se poderia realizar» [3]. Isto é falso. Ponto final. Camilo Lourenço devia documentar-se melhor, antes de falar. Ainda no próprio dia, foram publicadas mais notícias, dando conta de que as autoridades de saúde não estiveram o dia todo sentadas a fazer nada e só se lembraram à noite de impedir o jogo. Não! O que aconteceu foi que, ao fim da tarde, novas informações chegaram ao conhecimento das autoridades de saúde, que inviabilizaram a realização do jogo [4]. Essas informações tiveram que ver com um jantar, mas já lá iremos em maior detalhe.

Para já, passemos à terceira lição, que é, provavelmente, a mais importante: a honestidade compensa. Recordemos como se processa a acção das autoridades de saúde, independentemente de se tratar dum clube desportivo ou não. De forma resumida, é isto: perante um caso de doença, o delegado de saúde fala com o doente e pede-lhe informação, que permita perceber duas coisas: onde poderá ter sido contagiado e quem poderá ter contagiado a seguir. Com base nessa informação, decide-se quem tem de ficar em quarentena e quem tem de ser testado, para parar a transmissão da doença. Para este processo funcionar, tem de haver boa-fé e honestidade, da parte das pessoas que dão a informação. Se as autoridades de saúde não obtêm toda a informação, ou é dada informação incorrecta, está o caldo entornado. Portanto, é disso que falamos aqui. Conforme, mais tarde, foi comunicado pela ARS Norte [5], a autoridade de saúde «teve conhecimento de um caso positivo de Covid-19» no dia 10, identificou mais três no dia 11 e estabeleceu, nessa manhã, que não seria necessário adiar o jogo por causa disso [6], dando cumprimento às normas protocoladas, que dizem que «um caso positivo não torna, por si só, obrigatório o isolamento coletivo das equipas», mas diz também que «a determinação de isolamento de contactos (de praticantes e outros intervenientes), a título individual, é de estrita competência da Autoridade de Saúde territorialmente competente» [7]. O busílis da questão está em que nenhum dos doentes, nem nenhum responsável do Chaves, achou por bem informar as autoridades de saúde, logo de manhã, do tal jantar, e estas só tomaram conhecimento do mesmo, de acordo com o referido comunicado da ARS Norte, às 18h34 [5]. Ou seja, de repente, a hora e meia do jogo, a autoridade de saúde viu-se confrontada com uma informação que alterava tudo e sem tempo, antes do jogo começar, para repetir todo o processo de poder avaliar quem tinha ou não de ficar em quarentena. A única solução era adiar o jogo, por uma questão de precaução, visto não se saber quem tinha estado na mesa de quem, quem tinha estado na proximidade de quem e quem poderia entrar em campo infectado e, eventualmente, colocar os jogadores do Feirense em risco, nem havia tempo para descobrir; e foi isso que se fez. Ora, por que é que a lição a extrair de todo este processo é de que a honestidade compensa? Porque, sejamos claros: se a autoridade de saúde tivesse sabido do tal jantar de manhã, em vez de só às seis da tarde, talvez tivesse tido tempo de completar a avaliação de risco e talvez o jogo se pudesse ter realizado.

O que nos traz à quarta lição, que é: a Liga parece estar mais preocupada em cumprir o calendário desportivo, do que com a saúde dos jogadores e restante pessoal envolvido nas competições. O comunicado da ARS Norte [5] esclarece também que a decisão de adiar o jogo «foi comunicada ao responsável médico do Grupo Desportivo de Chaves, pelas 19 horas», ou seja, uma hora antes do jogo começar. Numa hora, não foi possível fazer chegar esta informação ao presidente do clube, ao Feirense e aos responsáveis da Liga, para que não fizessem a triste figura que se viu no campo? Ou será que a Liga só reage por escrito? Enviar um documento escrito demora tempo a escrevê-lo. Quando ser rápido é fundamental e se está entre pessoas de boa-fé, usa-se o telefone para agilizar soluções e remete-se a informação formal mais tarde. Aparentemente, com a Liga de Futebol, tal não é possível. Ou será que a Liga decidiu deliberadamente avançar com a entrada em campo e a realização do aquecimento, como forma de forçar a realização do jogo contra o parecer da autoridade de saúde, sem se preocupar com a saúde dos jogadores do Chaves, do Feirense, com as suas famílias e com as pessoas com que eles contactam? Ao fim e ao cabo, no dia seguinte, quando já estava mais do que clara a motivação do adiamento, a Directora Executiva da Liga ainda dizia que «não [conseguia] perceber o que aconteceu, pois este protocolo é igual ao que permitiu realizar todos os jogos da Liga a época passada» e acusava a autoridade local de saúde de ter tido «um entendimento novo e surpreendente» [8]. Pior: disse a Directora Executiva da Liga que «não se pode mudar as regras a meio do jogo» [9]. Pois não pode (e nisso estamos de acordo), mas espero que também concorde comigo que as regras são para cumprir. Tenho de recordar o número 4.3 do Plano de Retoma do Futebol Profissional [7]?

Aos jogadores e staff próximo ao jogador deve ser dada a indicação clara de se manterem em casa fora do período dos treinos, devendo ser suspensa a participação em eventos sociais ou presença em locais com elevado número de pessoas.

Está suspensa a participação em eventos sociais, mas há um jantar organizado pelo clube… Bom, acho que não preciso de dizer mais sobre regras e seu cumprimento!…

A quinta lição decorre da quarta e da importância desmesurada que a Liga dá à actividade que desenvolve. Então, o futebol é «uma atividade que não pode parar», diz o comunicado emitido ao fim da reunião da Liga que teve lugar no Sábado passado. Lamento, meus senhores, mas estão equivocados. Actividades que não podem parar, como, de resto, se viu em Março e Abril, são a produção e distribuição de alimentos e outros bens essenciais, incluindo, ao que parece, papel higiénico; o fornecimento de água, electricidade e gás; os serviços de saúde; as operações da protecção civil e das autoridades policiais; a recolha de lixo; os transportes públicos; a escolarização das nossas crianças; e outras coisas do mesmo teor, indispensáveis à sobrevivência humana e a um mínimo de dignidade, qualidade de vida e segurança. O futebol é um espectáculo e uma actividade de lazer e, por muito que nos custe, pode perfeitamente parar.

Portanto, foquemo-nos naquilo que é verdadeiramente importante, que é trabalharmos todos em conjunto para ultrapassarmos a grande crise sanitária que atravessamos e as crises social e económica que lhe estão associadas, sob pena de, se cada um remar para o seu lado, anularmos o esforço uns dos outros e não sairmos do sítio. E percebamos, duma vez por todas, que as autoridades estão aqui para ajudar a ultrapassar a pandemia, mas precisam da boa colaboração de todos e, sem essa colaboração, as consequências podem ser bem piores do que os pequenos sacrifícios que vão sendo pedidos aqui e ali.

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